Banquete em família

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Foto Adriano Curado
Aquele era o primeiro encontro de Valter com a família de Emília, uma moça que ele conheceu casualmente há um mês, quando começaram a se relacionar. Se dependesse dela já teria conhecido sua gente logo na primeira semana de namoro, tamanha a insistência. Mas ele adiou o quanto pôde o encontro, para evitar precipitações. 

Naquele domingo, no entanto, não houve como escapar. Emília lhe contou que seria aniversário de oitenta anos de sua avó e que toda a família estaria presente. Se ele não comparecesse, a magoaria. Então aceitou.

Valter era executivo de uma empresa multinacional e sabia que não ficaria muito tempo na cidade ou talvez no Brasil, porém não comentava desses assuntos com a namorada. Melhor seria deixar que as coisas fluíssem naturalmente.

Mas voltemos ao almoço. Um pouco nervoso porque o contato inicial com os sogros seria com tamanha plateia – a rua estava cheia de carros – ele estacionou, suspirou fundo e foi até a porta da casa. Mal tocou a campainha e uma mão forte o puxou para dentro. Parecia até que o aguardavam ou que era ele o prato principal daquele banquete. 

A sorte é traiçoeira

Foto Adriano Curado

E aconteceu que, depois de haver perdido tudo para o Maneco numa mesa de carteado, João resolveu se matar por receio de encarar a esposa e filhos em casa. É bem simplista uma solução assim. O sujeito faz as opções erradas na vida e quando as coisas desandam, parte dessa para outra. O pior mesmo, pensa ele à procura de uma árvore para se enforcar, é que já estava prestes a virar o jogo e recuperar o dinheiro perdido, mas daí a sorte se foi e ele apostou a casa onde mora.

Aquela mangueira ali parece ser uma boa opção. Tem troncos grossos e na altura certa: nem tão baixos que permitam que o instinto de sobrevivência o force a tocar os pés no chão, nem tão altos que exijam uma escalada. É, essa serve! Joga então a corda mais acima, senta-se no galho de onde pretende saltar, passa o laço no pescoço e se prepara para o mergulho mortal. Se tiver sorte e o pescoço se partir no baque, melhor. Se isso não acontecer terá de morrer asfixiado. 

Na beira da estrada


Hoje deparei com essa linda árvore. É a caraíba do cerrado que com seus cachos de ouro se deixa contrastar com o céu de imaculado azul. Ela sofreu com a queimada que tingiu seu tronco de negro, mas ainda assim se recusou a deixar de florir. Apeei do carro para fotografá-la em todo o seu esplendor.

Adriano Curado

O escritor exilado


Este é um refúgio que me impus para conseguir terminar o romance que faz tempo martela em minha mente. Um silêncio sem igual vem com a noite e eu posso escrever em paz. À minha volta transitam personagens e paisagens mesclados com tempos diferentes e enredos improváveis. Tenho cá em minha companhia uma garrafa de Screaming Eagle que é feito da uva francesa cabernet sauvignon de Bordeaux. 

O dedo desliza suave pelas teclas e de olho fechados me recuso a ler o que digito. É quase uma psicografia ou um arremesso de loucura incontida.

A estranha da rua


Aquela moça que mora próximo ao final da nossa rua, ali pertinho da praça florida, é uma pessoa muito estranha e enigmática. Tanto que as mães não gostam que seus filhos brinquem no parquinho da praça, temem que a desconhecida manifeste assim de repente algum instinto assassino. Ela mora por aqui há uns dois anos e até hoje ninguém sabe seu nome ou algo de sua vida. Nunca a vimos sair para trabalhar ou estudar. Salvo o carteiro que uma vez por semana lhe entrega um envelope pardo, não recebe ninguém em casa. Ano passado fizemos uma quadrilha aqui na rua e a convidamos, mas ela recusou.


E o mais interessante é que a danada é bonita demais. Deve andar ali pelo meio da casa dos trinta, se muito, é loira e tem olhos de um azul triste, sem brilho algum. Eu a cumprimento sempre que a vejo raramente em trânsito e ela responde com um esboço de sorriso. Mas parece que sou o único por aqui que faz isso. O restante da rua é implicado com a pobre, que sequer se deixa ver com frequência, quem dirá fazer mal a alguém.

Um amor acima do próprio amor


Confesso que fui apaixonado por Angélica desde criança. Nossos pais eram amigos e a gente sempre se encontrava nas festas em comum. Ele também demonstrava gostar de mim. Um dia, já no desabroche do corpo, trocamos beijos numa quermesse da igreja, só que adolescente não dá sequência nos fatos. Alguns anos mais tarde começamos a namorar sério.

Tudo muito bom e agradável não fosse Angélica portadora de um distúrbio mental qualquer. Na normalidade de seus dias era uma moça risonha e agradável, que interagia com todos e possuía um ótimo convívio social. Mas nas crises da doença ela se tornava um ser medonho, perigoso e frio, e não faltou quem lhe atribuísse possessões demoníacas e coisas do gênero.

Qualquer pessoa prudente teria saído desse relacionamento perigoso, mas eu não podia porque era apaixonado por aquela mulher. Ela se mostrava deslumbrante aos meus olhos e eu via em seu rosto lindo a imagem duma imaculada pessoa. Coisas do amor, é óbvio. E foi então que nos casamos. Nem minha família e nem a dela queriam. Estavam certos, como mais tarde eu descobriria. A dela porque queria interná-la de vez numa clínica psiquiátrica e se livrar do fardo. A minha por razão evidente. Então fizemos nosso enlace sozinhos mesmo, ali na capelinha próximo da casa onde há um ano já morávamos juntos, e só alguns amigos compareceram.