O aventureiro sem noção

Essa mania que Fernando tinha de sempre sair sozinho mato afora, sem dizer a ninguém onde ia, era um perigoso meio de se expor ao desconhecido. E não adiantava argumentar com ele. Seus colegas no trabalho, seus familiares, os amigos, enfim, todo mundo já tinha avisado. Eles desconversava, inventava mil desculpas e quando a prensa apertava, jurava que só se aventuraria dali em diante acompanhado. Mas era chegar um feriado emendado e lá ia o aventureiro nalguma nova aventura solitária. Certo dia alguém indagou a ele o porquê de não gostar de companhia nessas andanças e ele respondeu que o silêncio era o que mais apreciava nesta vida, seu vinho de rótulo raro, o encontro com a essência da alma.

Fato é que, chegado o Carnaval, Fernando arrumou as tralhas na mochila e se foi para uma mata escura e cerrada no Planalto Centro do Brasil. Como era costume, ninguém soube onde. Acampou perto de um riacho e à noite comeu uns enlatados que havia levado. Para segurança pessoal, porque por aqui sempre há relatos de felinos imensos e ferozes, trazia consigo uma pistola e uma caixa de balas. Dormia com a arma debaixo do travesseiro, embora um amigo o alertara há pouco que, no caso de um ataque de onça, por exemplo, ele não teria tempo sequer de empunhar a arma, quem dirá atirar. Mas ele era cabeça dura, como já o dissemos.

Na torre do poente

Traidor da máfia, Alfredo sabia que estava com o fim confirmado. Teve mais certeza ainda quando sua casa foi queimada, seu carro explodiu e seu dinheiro sumiu da conta bancária. Então não encontrou outra alternativa que se refugiar naquela ilha distante, onde seria impossível rastrear sua presença.

Mas Alfredo estava enganado. Ele subestimou a poderosa máfia. E foi de muito longe que viu atracar na areia uma lancha que se aproximou em alta velocidade. Notou então que sua posição fora descoberta e que agora sua vida nada valia.

Correu sôfrego para o velho castelo em ruína e se refugiou em uma de suas torres, justo a do poente onde noite passada teve um pesadelo que lhe revelou que sua morte seria ali. Tinha consigo uma pistola e algumas balas no bolso, mas sabia que a máfia não mandaria um amador para pegá-lo. Certamente que um grande agente apareceria para dar conta do serviço sem comprometer a corporação com a justiça, onde houve a traição - nos dias atuais: delação premiada.

A porta da torre se abriu. Já sabem onde ele está. Como assim? Não importa, eles sabem. Um vulto surge e não é possível vislumbra-lo. Encaminha-se o recém-chegado até uma das janelas e se coloca contra a claridade. Só então se revela uma mulher de impressionantes silhuetas, longo cabelo e vestido curto.

A princesa moura

Quando as tropas cristãs tomaram Lisboa após longo e sangrento cerco, cruel foi a sorte dos prisioneiros homens passados ao fio da espada, mas creio que muito pior foi o destino das mulheres, violadas e depois também mortas. Correu um rio de sangue no calçamento de pedras seculares, e corpos ficaram estendidos e apodreciam ao sol. Mas nada disso impediu que os soldados cristãos saltassem essas porcarias e fossem saquear as casas para levar os bens dos subjugados. É o espólio de guerra. 

Era o dia 21 de outubro de 1147 quando finalmente terminou o cerco de três meses imposto à cidade e o exército de Dom Afonso Henrique atravessou a imbatível muralha de pedra. O sultão e quase toda sua família foram executados pela espada dos cruzados, e apenas sua filha caçula, Aludra A’ishah, de dezessete anos, escapou por conta de uma manobra das camareiras reais. Vestida de plebeia, ela se confundiu à demais mulheres na rendição e conseguiu sair da cidade. 

O despertador madrugador


O despertador me faz dar um salto da cama às seis. É segunda-feira, quero dormir um pouco mais mas não dá. Tomo banho rápido, engulo café com leite, visto o terno e saio para o cotidiano. Como vim parar aqui? - indago-me enquanto manobro na garagem apertada do velho prédio. Não há respostas para consequências das escolhas que fazemos.

Agora o trânsito. Ah o terrível trânsito! Fecho a janela, ligo o ar-condicionado com o circulador interno, mas ainda assim a malcheirosa poluição dos escapamentos invade meu pequeno espaço de privacidade nesta loucura toda. Tenho rompantes de gritar para que parem de buzinar. Por que buzinam tanto se não há para onde fugir?

Um ambulante bate no vidro insistentemente. Uma, duas, nove vezes. Então abro com impaciência para dizer que não quero o produto que me oferece. Ele faz um muxoxo e se afasta. Prejuízo para mim porque o guarda de trânsito acaba de anotar minha placa e certamente é porque não estou com as mãos no volante.

Duas horas depois de sair de casa finalmente chego ao meu burocrático trabalho. Ambiente artificial de ar-condicionado, barulho de teclas nervosas de computador e aquela cor bege estressante para todos os lados. Mal cheguei e o diretor me chama, quer falar comigo a sós. Diz que fui o melhor profissional da empresa ano passado e que por isso me dará um bônus que posso gastar como quiser.



Desapareci daquele mundo de caos absoluto e apareci aqui neste lugar. Aspiro um cheiro suave de natureza e ouço apenas os pássaros. Tenho dinheiro suficiente no bolso mas isso não importa mais porque não há onde gastar. E sabe aquele despertador que me violentava à seis? Está no fundo das águas tranquilas do lago.

Pensei bem e decidi que vou converter aquela bônus em aposentadoria.

Adriano Curado

Férias em terras distantes

Aproveito o recesso do Poder Judiciário - sou advogado - para passear por terras distantes. Aliás, bem distantes de meu Goiás. É que vim conhecer o Arquipélago de Santorini na Grécia. Nunca passou pela minha cabeça um dia conhecer o Mar Egeu porque isso parecia muito distante da minha realidade. Não é. Qualquer um pode vir aqui, basta se organizar e ter um foco.

Nem parece que estamos em uma ilha vulcânica e que tudo isso já foi um rio de lavas e fogo. É dos lugares mais belos que conheci até agora. As casinhas coloridas empilhadas nas encosta é um espetáculo a parte. E que dizer desse mar absolutamente azul que disputa em beleza com o céu?! Aqui há uma vida noturna intensa, mas meu fogo é escrever: trabalhar no novo romance e ainda deixar um diário de viagem, que futuramente também pretendo publicar. Deixei até a Nikon no Brasil para não correr o risco de desviar atenção.

Peixe Vivo

Depois de passar raiva com notícias sobres políticos corruptos e me assustar com tragédias mundo afora, fechei o jornal. Pela janela vi uma chuva fina e constante. Há um sabiá comodamente hospedado na minha varanda e me observa do seu ninho. O silêncio da casa é um convite à rede e a um poema de Fernando Pessoa, mas resisto bravamente porque tenho que trabalhar. Há processos virtuais na espera de manifestação - a justiça agora não usa mais processos de papel - e preciso me concentrar neles. Só que não consigo... a quietude insinua que preciso aproveitar o momento.

Desço agora até o quintal. Uso capa de chuva e botas de borracha. Sento-me num tronco caído de jatobá e tiro do bolso minha flauta doce. Que vou tocar? Pensei nas Bachianas Brasileiras do Vila Lobos, mas me contento em assoprar Peixe Vivo no canudo de madeira.

E agora a água desaba sem dó. Já estou todo ensopado, e a flauta também. Daqui a pouco nem vai mais sair som algum. Não importa, continuarei com minha dança exótica por entre este bosque deserto.

Mas preciso trabalhar. Há processos que me aguardam...  Como pode um peixe vivo viver fora da água frita?

Adriano Curado