Uma paraquedista na minha sala

Sabe aqueles filmes românticos de James Bond em que uma mulher linda e nua desce de paraquedas com champanhe e duas taças? Pois é. Algo parecido aconteceu comigo há algum tempo, mas não tão poético assim.

Estava eu sentado na sala de casa bem distraído na métrica de um poema, quando um estrondo quase me matou de susto, Achei até que a casa antiga vinha abaixo. A princípio fiquei deitado no chão e não conseguia vislumbrar nada porque grande era a quantidade de poeira no ar. Mas quando a visibilidade aumentou, notei que havia algo imenso e vermelho ali bem próximo de mim. Esse é daqueles momentos na vida em que a gente fica meio sem saber o que fazer porque o inusitado nos tira qualquer capacidade de reação.

Fui despertado do torpor por um gemido. Fiquei com a respiração suspensa no aguardo do que se passava, já que ainda não entendia nada. Novamente um gemido. Então caí na real. Há alguém aqui dentro. Como isso é possível não sei, mas que há, há. Então tomei coragem e perguntei: "Quem está aí?" Não ouvi resposta alguma além de pequenos sons abafados. Abri as janelas para expulsar o pó e só então vi que o telhado estava destruído, telhas e madeiramento no chão, e um paraquedas se encontrava estendido bem no centro da sala.

O sumiço das assombrações

Você já notou que as assombrações sumiram do imaginário popular? Creio que isso é fruto da modernidade. Hoje as pessoas não têm mais tempo para essas extravagâncias, preferem assistir televisão ou acessar internet. Mas houve tempo em que eram bem recorrentes os causos de aparições.

Lembro-me da infância na fazenda de meu avô José, quando ao final do dia a peonagem se sentava ao pé de um fogão a lenha, enrolava o cigarro de palha, trocava um dedo de prosa até chegar a hora de dormir, E naqueles bons tempos se dormia cedo. Fato é que, lá pelas tantas, sempre se ouvia uma narrativa do outro mundo. Eu ficava ali de olhos bem arregalados, coração palpitante, e quando ia dormir estava tão impressionado que ouvia passos e arrastar de correntes a noite toda.

Um dia meu avô, que era um cético, depois de ouvir o que ele classificou de baboseiras, levantou-se e disse em alto e bom som que não acreditava em nada daquilo. E completou: "Se existir alma de outro mundo, que chame meu nome". Mal terminou de falar e ouvimos lá de fora: "Zé!"

Foi um pandemônio na fazenda. Meu avô achava que era uma brincadeira de mal gosto. Acendeu luzes, piscou a cachorrada e pôs todos a averiguar. Mas não havia ninguém. Ali na cozinha estavam todos que se encontravam na fazenda naquele momento. Nunca soubemos explicar isso.

A fuga do louco

Quando correu a notícia de que Valdo havia fugido da clínica psiquiátrica foi um alvoroço na cidade. Ele era um famoso louco perigoso, furioso e forte. Havia matado os pais e o irmão com uma faca e ainda atentado contra a vida da irmã, que miraculosamente escapara. 

Isso foi há cinco anos. Na época o delegado responsável pelo caso, Vladimir, não investigou muito, considerando que o autor do fato tinha um longo histórico de tratamento psiquiátrico, embora sem nenhum registro de agressão a alguém. A única particularidade foi ele ter cometido os homicídios e ainda ter frieza para destruir o circuito interno de filmagem da casa.

Depois do crime bárbaro, foi internado para tratamento e lá ficou esse tempo todo. A irmã sobrevivente do massacre passou a gerir a fábrica da família e não o desamparou financeiramente.  Não sei se era por conta dos remédios que o dopavam ou por arrependimento, se era capaz de tal sentimento, fato é que sempre foi um interno exemplar.

Abordagem policial

O pacato Joaquim lê o jornal no jardim. Ele é o motorista particular daquela mansão. Discreto, é o funcionário ideal. De repente, ao virar a página policial, depara com a foto de um terrorista que era procurado há décadas pela Interpol. Seu coração dá um salto e ele deixa cair o jornal.

Para entender essa história retornemos dez anos antes.

Era grande o movimento na estrada quando os policiais rodoviários resolveram montar a blitz. Quando escureceu a fila já era imensa e então resolveram diminuir ainda mais as abordagens. Os policiais Sousa e Ananias não estavam na blitz. Posicionaram-se uns dois quilômetros à frente, numa segunda barreira, para interceptar quem ousasse não parar.

Ananias era um homem de pouco mais de trinta anos de idade e dez na corporação. Colecionava uma longa ficha de antecedentes ruins que iam de abuso de autoridade até corrupção passiva. Não tinha condenação alguma, conforme explicava ao colega que o olhava meio assustado. Sousa, ao contrário, era quase novato, pois estava há apenas dois anos do quadro e seus antecedentes  permaneciam limpos.

Ainda conversavam os dois quando o rádio sinalizou que um motorista acabara de furar o bloqueio. Era preciso interceptá-lo. Então Ananinas, que era o motorista, acelerou no encalço do fugitivo que um pouco adiante entrou numa estrada de fazenda. Foi um duelo longo dos dois condutores na estrada poeirenta e escura, até que finalmente o da frente perdeu o controle, girou na pista e se chocou contra uma árvore. A viatura parou e antes que o motorista ainda tonto pudesse abrir a porta, conseguiram abordá-lo. Sousa ficou junto à viatura com uma submetralhadora na cobertura. 

O companheiro de bebida

Desde que perdeu a esposa e o emprego que Leo não conseguia abandonar a bebida. Achava que tudo aquilo fora uma injustiça com a sua pessoa e que um dia ainda seria desagravado. Também pudera. Maria, o nome da desavergonhada, trocou-o por um caminhoneiro num domingo festivo. Entrou na boleia e nunca mais foi vista.

Pior mesmo foram os comentários maldosos na pequena cidade. As gentes do interior têm essa mania de comentar a vida alheia! Mas no caso de Leo, a maldade ia além de simples comentários. Ele era apontado na rua e riam de sua cara: "Lá vai o chifrudo!" "Ó Leo, cadê sua mulher?" "Leo, sua mulher não faria um frete para mim?"

Com uma pressão dessas não me admira que tenha optado por enfiar a cara da cachaça. E enfiou com vontade. Começou com invernada de sexta a domingo, mas por final das contas já bebia todos os dias da semana. E não deu outra. Perdeu o emprego. Foi dispensado por justa causa. E depois disso é que largou mão de tudo e se afundou no álcool. Os amigos até que tentaram ajudar, aconselhavam, tentavam levá-lo para a igreja, Coisas assim. Mas tudo foi inútil. Leo está irremediavelmente perdido, esse era o consenso.

O saltador de muros

Essa mania de Dalmo de saltar o muro de casas de mulheres comprometidas era muito arriscada. Volta e meia o homem escapava por pouco de maridos que chegavam antes da hora. Certa feita quase foi alvejado por um soldado que o flagrou dentro do seu quintal e julgou ser um ladrão. Não era, e a esposa do militar que se explicasse...

E o mais interessante disso tudo é que Dalmo não era nem jovem e nem bonito. Solteirão convicto, desses que escolhera desde cedo não subir ao altar, ele envelhecera sem jamais ter sequer noivado. Mas namoradas e amantes teve muitas. Já na casa dos seus sessenta anos, admirava os amigos quando narrava suas escaladas em muros respeitáveis de certas casas.

Mas todo aventureiro sexual cedo ou tarde encontra a dele. E com Dalmo não foi diferente. Mal o capitão comandante da polícia assumiu o cargo na cidade e Dalmo foi à caça da esposa dele. Cerca daqui, vai acolá, e não é que convenceu a jovem a ceder aos seus encantos! E ela nem tinha ainda trinta anos de idade.

No dia que o destacamento foi participar de um desfile cívico na capital, o capitão no comando da tropa tipicamente adornada com trajes de gala, Dalmo viu a oportunidade de consumar suas pretensões. E no afã de usufruir daquelas carnes novas, deixou cair o relógio de pulso e nem notou. Só que era um Patek Philipp antigo, que pertencera ao seu bisavô e ainda estava em pleno funcionamento. Por isso decidiu pregar um cartaz no seu estabelecimento comercial (ele era dono de um bar) com os dizeres: "Procura-se um Patek Philipp com pulseira de couro legítimo. Gratifica-se bem."

O dia que João morreu

No dia da morte de João não acontecia nada de espetacular, e nem o personagem principal era alguém de grande importância. Então por que contar essa história? Porque é simplesmente o João que saiu de casa ainda cedo, como fazia todos os dias, deixou os filhos na cama e a esposa ainda adormecida. Ela trabalhava de motorista de ônibus coletivo e tinha que estar no posto às quatro da manhã, impreterivelmente.

Ainda está escuro e João já faz funcionar seu veículo de trabalho. Daqui a pouco, no entanto, ele infelizmente morrerá, e adiante-se que não será nem de morte matada e nem de morte morrida. Mas aguardemos o desdobramento natural dos fatos porque não é de bom tom adiantar um assunto assim tão melindroso. Fato é que, se pelo menos desconfiasse da tragédia que o aguarda, João não estaria nesse cuidado todo com o ônibus, pois passa pacientemente a flanela pelo painel enquanto manobra no pátio da empresa.

Tenho pena de João, assim tão jovem (mal completou quarenta anos) e já vai morrer. Ele vem de uma família pobre, lá do interior do Estado, mudou-se para a cidade grande, estudou, tirou a carta de habilitação e, por fim, conseguiu galgar o posto de motorista, mas não sem antes ser cobrador por muitos anos suados. Casou faz pouco tempo, tem dois filhos, uma esposa bonitinha, uma casa financiada em trinta anos - dos quais ele viveu apenas dois.

O alpinista

Bruno e eu éramos muito amigos. Crescemos juntos e estudamos nas mesmas instituições de ensino, até que chegou a faculdade e cada um seguiu seu caminho. 

Ocorre que há três anos nós brigamos. Nem sei direito qual foi o motivo, mas acho que era por causa de um negócio que eu queria realizar e ele me disse que era uma fria. Hoje, depois de amargar um prejuízo, reconheço que ele tinha razão.

Há um ano Bruno, que era alpinista, sofreu um acidente fatal. Ele despencou misteriosamente de uma montanha na Cordilheira do Himalaia e se espatifou lá embaixo. Uma tragédia que abalou a todos nós, seus amigos, e mais ainda a mim porque ele morreu antes de fazermos as pazes.

Lembrei-me desse fato hoje porque encontrei um livro que havia emprestado para Bruno e que ele devolveu através de um amigo em comum, já que tentou falar comigo e não o recebi. Dentro do livro, só agora descobri, havia um bilhete para mim, com os seguintes dizeres:

O novo advogado

Recém-formado em Direito, a custo Daniel conseguiu sua carteira de advogado, pois a prova de seleção foi um sufoco. Mas agora ele estava na profissão que escolheu e sentia sede de trabalho. Seu primeiro ato foi alugar uma sala comercial e ali instalar um pequeno escritório de advocacia. Nem secretária ele tinha condições de contratar. No muito um telefone para contado e um computador.

Com a estrutura física pronta, Daniel foi se apresentar ao juiz de direito da comarca e se colocar à disposição para nomeações necessárias. O magistrado o recebeu bem, elogiou seu esforço pessoal e disposição para o trabalho. E para que Daniel não saísse dali de mãos vazias, foi presenteado com a nomeação para defesa de um caso polêmico. Era o processo famoso de Maria Clara, uma jovem acusada de matar os pais enquanto dormiam. Ela foi encontrada nua na rua, chorava e não conseguia se lembrar de nada. O ministério público a denunciou depois que o laudo pericial constatou que não era louca.

A cultura do estupro

Diante de tanto noticiário diário que relata casos de estupros, resta-nos indagar os motivos. Que leva uma pessoa, em pleno século XXI, a optar por atacar uma pessoa e a violentar? Se isso ocorresse lá no passado, quando ainda havia a disseminação da ideia de opressão do macho sobre a fêmea (embora igualmente detestável) causaria menos estranheza. Mas nos dias atuais, excluídos os casos de demência, que esses requerem tratamento, o estupro não se justifica.

Vem das eras antigas. Quando um exército batia o outro, os homens violentavam as mulheres do povo subjugado para impor sua etnia e extinguir a do adversário. Depois vieram as guerras e seus troféus carnais, os assaltos e suas dádivas libidinosas e, por fim, a violência dentro da própria casa. E parece que esse pesadelo não tem mais fim. Já tão avançada em seu progresso a humanidade não consegue reverter essa prática animal.

Não há uma explicação plausível para justificar que um homem ataque uma mulher e a force a fazer sexo com ele. E ainda mais incompreensível é imaginar que esse mesmo homem sinta prazer em ver alguém ali com nojo de seu ato.