O HOMEM QUE SE NEGOU A FALIR


No dia em que foi anunciado a Valter Moreira que ele estava falido e que precisaria vender tudo que tem e ainda ficaria devedor, nesse dia, todos se escandalizaram no tribunal com sua gargalhada. Esperavam que ele se desesperasse e o descontrole tomasse conta de si, mas ao contrário disso ele se voltou para o juiz e disse: “Quem é você para sentenciar que estou falido se ainda me sinto rico?” E após dizer isso deu as costas e se retirou do plenário sem ao menos assinar a ata da audiência.

Enquanto a cidade estava em rebuliço e os credores corriam para seus advogados para habilitar logo na falência, Valter tranquilamente se dirigia até o escritório do libanês Jamil Kaled e lhe propunha um negócio irrecusável: o ricaço quitaria sua dívida de um milhão de reais e em troca ele lhe devolveria cinco milhões em um ano. O velho negociante olhou demorado para Valter, brincou com a caneta que tinha na mão e antes de responder indagou:

Banquete em família

C
Foto Adriano Curado
Aquele era o primeiro encontro de Valter com a família de Emília, uma moça que ele conheceu casualmente há um mês, quando começaram a se relacionar. Se dependesse dela já teria conhecido sua gente logo na primeira semana de namoro, tamanha a insistência. Mas ele adiou o quanto pôde o encontro, para evitar precipitações. 

Naquele domingo, no entanto, não houve como escapar. Emília lhe contou que seria aniversário de oitenta anos de sua avó e que toda a família estaria presente. Se ele não comparecesse, a magoaria. Então aceitou.

Valter era executivo de uma empresa multinacional e sabia que não ficaria muito tempo na cidade ou talvez no Brasil, porém não comentava desses assuntos com a namorada. Melhor seria deixar que as coisas fluíssem naturalmente.

Mas voltemos ao almoço. Um pouco nervoso porque o contato inicial com os sogros seria com tamanha plateia – a rua estava cheia de carros – ele estacionou, suspirou fundo e foi até a porta da casa. Mal tocou a campainha e uma mão forte o puxou para dentro. Parecia até que o aguardavam ou que era ele o prato principal daquele banquete. 

A sorte é traiçoeira

Foto Adriano Curado

E aconteceu que, depois de haver perdido tudo para o Maneco numa mesa de carteado, João resolveu se matar por receio de encarar a esposa e filhos em casa. É bem simplista uma solução assim. O sujeito faz as opções erradas na vida e quando as coisas desandam, parte dessa para outra. O pior mesmo, pensa ele à procura de uma árvore para se enforcar, é que já estava prestes a virar o jogo e recuperar o dinheiro perdido, mas daí a sorte se foi e ele apostou a casa onde mora.

Aquela mangueira ali parece ser uma boa opção. Tem troncos grossos e na altura certa: nem tão baixos que permitam que o instinto de sobrevivência o force a tocar os pés no chão, nem tão altos que exijam uma escalada. É, essa serve! Joga então a corda mais acima, senta-se no galho de onde pretende saltar, passa o laço no pescoço e se prepara para o mergulho mortal. Se tiver sorte e o pescoço se partir no baque, melhor. Se isso não acontecer terá de morrer asfixiado. 

Na beira da estrada


Hoje deparei com essa linda árvore. É a caraíba do cerrado que com seus cachos de ouro se deixa contrastar com o céu de imaculado azul. Ela sofreu com a queimada que tingiu seu tronco de negro, mas ainda assim se recusou a deixar de florir. Apeei do carro para fotografá-la em todo o seu esplendor.

Adriano Curado

O escritor exilado


Este é um refúgio que me impus para conseguir terminar o romance que faz tempo martela em minha mente. Um silêncio sem igual vem com a noite e eu posso escrever em paz. À minha volta transitam personagens e paisagens mesclados com tempos diferentes e enredos improváveis. Tenho cá em minha companhia uma garrafa de Screaming Eagle que é feito da uva francesa cabernet sauvignon de Bordeaux. 

O dedo desliza suave pelas teclas e de olho fechados me recuso a ler o que digito. É quase uma psicografia ou um arremesso de loucura incontida.

A estranha da rua


Aquela moça que mora próximo ao final da nossa rua, ali pertinho da praça florida, é uma pessoa muito estranha e enigmática. Tanto que as mães não gostam que seus filhos brinquem no parquinho da praça, temem que a desconhecida manifeste assim de repente algum instinto assassino. Ela mora por aqui há uns dois anos e até hoje ninguém sabe seu nome ou algo de sua vida. Nunca a vimos sair para trabalhar ou estudar. Salvo o carteiro que uma vez por semana lhe entrega um envelope pardo, não recebe ninguém em casa. Ano passado fizemos uma quadrilha aqui na rua e a convidamos, mas ela recusou.


E o mais interessante é que a danada é bonita demais. Deve andar ali pelo meio da casa dos trinta, se muito, é loira e tem olhos de um azul triste, sem brilho algum. Eu a cumprimento sempre que a vejo raramente em trânsito e ela responde com um esboço de sorriso. Mas parece que sou o único por aqui que faz isso. O restante da rua é implicado com a pobre, que sequer se deixa ver com frequência, quem dirá fazer mal a alguém.