Na beira da estrada


Hoje deparei com essa linda árvore. É a caraíba do cerrado que com seus cachos de ouro se deixa contrastar com o céu de imaculado azul. Ela sofreu com a queimada que tingiu seu tronco de negro, mas ainda assim se recusou a deixar de florir. Apeei do carro para fotografá-la em todo o seu esplendor.

Adriano Curado

O escritor exilado


Este é um refúgio que me impus para conseguir terminar o romance que faz tempo martela em minha mente. Um silêncio sem igual vem com a noite e eu posso escrever em paz. À minha volta transitam personagens e paisagens mesclados com tempos diferentes e enredos improváveis. Tenho cá em minha companhia uma garrafa de Screaming Eagle que é feito da uva francesa cabernet sauvignon de Bordeaux. 

O dedo desliza suave pelas teclas e de olho fechados me recuso a ler o que digito. É quase uma psicografia ou um arremesso de loucura incontida.

A estranha da rua


Aquela moça que mora próximo ao final da nossa rua, ali pertinho da praça florida, é uma pessoa muito estranha e enigmática. Tanto que as mães não gostam que seus filhos brinquem no parquinho da praça, temem que a desconhecida manifeste assim de repente algum instinto assassino. Ela mora por aqui há uns dois anos e até hoje ninguém sabe seu nome ou algo de sua vida. Nunca a vimos sair para trabalhar ou estudar. Salvo o carteiro que uma vez por semana lhe entrega um envelope pardo, não recebe ninguém em casa. Ano passado fizemos uma quadrilha aqui na rua e a convidamos, mas ela recusou.


E o mais interessante é que a danada é bonita demais. Deve andar ali pelo meio da casa dos trinta, se muito, é loira e tem olhos de um azul triste, sem brilho algum. Eu a cumprimento sempre que a vejo raramente em trânsito e ela responde com um esboço de sorriso. Mas parece que sou o único por aqui que faz isso. O restante da rua é implicado com a pobre, que sequer se deixa ver com frequência, quem dirá fazer mal a alguém.

Um amor acima do próprio amor


Confesso que fui apaixonado por Angélica desde criança. Nossos pais eram amigos e a gente sempre se encontrava nas festas em comum. Ele também demonstrava gostar de mim. Um dia, já no desabroche do corpo, trocamos beijos numa quermesse da igreja, só que adolescente não dá sequência nos fatos. Alguns anos mais tarde começamos a namorar sério.

Tudo muito bom e agradável não fosse Angélica portadora de um distúrbio mental qualquer. Na normalidade de seus dias era uma moça risonha e agradável, que interagia com todos e possuía um ótimo convívio social. Mas nas crises da doença ela se tornava um ser medonho, perigoso e frio, e não faltou quem lhe atribuísse possessões demoníacas e coisas do gênero.

Qualquer pessoa prudente teria saído desse relacionamento perigoso, mas eu não podia porque era apaixonado por aquela mulher. Ela se mostrava deslumbrante aos meus olhos e eu via em seu rosto lindo a imagem duma imaculada pessoa. Coisas do amor, é óbvio. E foi então que nos casamos. Nem minha família e nem a dela queriam. Estavam certos, como mais tarde eu descobriria. A dela porque queria interná-la de vez numa clínica psiquiátrica e se livrar do fardo. A minha por razão evidente. Então fizemos nosso enlace sozinhos mesmo, ali na capelinha próximo da casa onde há um ano já morávamos juntos, e só alguns amigos compareceram.

A morte de Iolanda


Não saberia dizer o porquê de Iolanda ser forçada a se casar com aquele homem. Eles não tinham nenhuma afinidade, eram apenas conhecidos. Se bem que Alberto, esse seu nome, era muito amigo do pai dela e os dois tinham alguns interesses em comum. Mas ninguém era rico ali, e um casamento assim, sem significativas vantagens patrimoniais, não se justificava.

Fato é que, depois de um breve namoro arranjado, o enlace se consumou. Foi uma bonita cerimônia na igrejinha perto da casa de todos e uma discreta festa no jardim. A noiva estava triste mas não demonstrava para não desagradar seu pai. A mãe havia falecido em seu parto. No mais, como diziam os antigos, com o tempo o amor chega. 

Mas não chegou. Com pouco prazo Alberto se mostrou uma pessoa obsessiva e cruel. Judiava da esposa, privava-a do convívio das amigas e do pai. Era ciumento ao extremo. Iolanda permanecia em silêncio, não reclamava com ninguém por medo de que chegasse ao ouvido daquele a quem mais amava.

Moça distante


Moça tão distante nas alturas infinitas, sentada ali na beira da praia ao entardecer, solidão que transpassa sua alma! Se o vento bate contra, diria que chora, mas isso não posso afirmar com convicção. Estou aqui há cinco dias e em todos ela sempre está ali, naquela rocha grande, à hora dos anjos, quando o sol fincado pela flecha da noite agoniza e sangra sua dor no poente infinito.

Às vezes sinto rompante de me sentar ao seu lado, ainda que em silêncio permanecesse, só para sentir a vibração de seu espírito e a fluidez das amplitudes de sua alma. Mas sei que não devo porque esse é o momento de sua meditação profunda, de seu encontro com algo que ela acredita como sagrado.