O velho fogão




Fogão velho da roça, desses de cimento queimado, encerado de vermelho, da comidinha caseira feita na banha de porco e temperada com alho socado. Ali o feijão borbulha noite inteirinha num caldeirão de ferro e no outro dia tem caldo encorpado e gostoso. Ali a carne de lata se desmancha e colore o arroz soltinho.

No forno do fogão a lenha já está assada a broa de milho, e enquanto o café escalda no coador de pano, já tem meninada em volta da mesa, cotovelos na toalha xadrez e olhares de infância feliz.

No rabo desse velho fogão, já se sentaram muitas gerações de prosadores, conversa que fluía macia, a lembrança acordada pela aguardente do engenho logo ali à frente.

O papiloscopista medroso


Tem certas profissões que não combinam com algumas pessoas. E no caso de Wagner, não foi por falta de avisar. Desde criança ele sempre se mostrou muito nervoso e assombrado. Diziam seus pais que ele acordava com gritos pavorosos por conta dos sonhos que tinha.

Mas, enfim...!

Wagner, depois de muito estudar, conseguiu ser aprovado num concurso para papiloscopista da polícia técnico-científica. Uma grande conquista a estabilidade na carreira pública e o fim de longas maratonas como concurseiro. Só tinha um porém: ele continuava apavorado!

A janela da alma


Cá está a janela abandonada, ausente de corpos que a habitem, desesperança de se reabrir ao mundo. E por ali já desfilaram tantas serenadas para as sinhás e já se discursou eternidades para os coronéis! E o quanto já se espionou sem ser visto, pelas frestas das tabuletas anônimas! Agora a janela está ali, abandonada na tapera desacorçoada, deixada ao humor do tempo implacável e esquecida do glamour impactante de outras eras. Vai desaparecer com a casa e levará junto a história mal contada dos amores proibidos. Vai para a região das lendas sem sequer ter deixado a dos sonhos ou excursionado pelas almas combalidas dos poetas esquálidos. Ali estava a janela abandonada...!

Adriano Curado

Mariana, a louca


A moça Mariana morava próximo aqui de casa mas ninguém tinha acesso a ela. Conhecida como A Louca, ela passava os dias solitária num balanço no quintal da casa. Seus pais impediam que convivesse com outras pessoas, talvez por vergonha de seu estado mental. E o isolamento chegou a tal ponto que eles mesmos a alfabetizaram. Quando saíam de carro, ela era camuflada pelos vidros escuros. Se a faxineira aparecia duas vezes por semana, A Louca era trancada no quarto. Família rica e tradicional na rua, podia se dar ao luxo de manter um mundo à parte para a filha.

Ocorre que o destino às vezes prega peças na gente. Um acidente de carro vitimou seus pais e A Louca ficou sozinha em casa. A coitada não tinha outros parentes. Como todos na ruas estavam acostumados a ignorá-la, não se deram conta de que, uma semana depois, ela ainda estava ali no balanço. Eu soube porque podia vê-la da janela aqui de casa. Decidi ajudá-la, embora temesse ser atacado porque A Louca bem que podia ser violenta. 

O HOMEM QUE SE NEGOU A FALIR


No dia em que foi anunciado a Valter Moreira que ele estava falido e que precisaria vender tudo que tem e ainda ficaria devedor, nesse dia, todos se escandalizaram no tribunal com sua gargalhada. Esperavam que ele se desesperasse e o descontrole tomasse conta de si, mas ao contrário disso ele se voltou para o juiz e disse: “Quem é você para sentenciar que estou falido se ainda me sinto rico?” E após dizer isso deu as costas e se retirou do plenário sem ao menos assinar a ata da audiência.

Enquanto a cidade estava em rebuliço e os credores corriam para seus advogados para habilitar logo na falência, Valter tranquilamente se dirigia até o escritório do libanês Jamil Kaled e lhe propunha um negócio irrecusável: o ricaço quitaria sua dívida de um milhão de reais e em troca ele lhe devolveria cinco milhões em um ano. O velho negociante olhou demorado para Valter, brincou com a caneta que tinha na mão e antes de responder indagou:

Banquete em família

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Foto Adriano Curado
Aquele era o primeiro encontro de Valter com a família de Emília, uma moça que ele conheceu casualmente há um mês, quando começaram a se relacionar. Se dependesse dela já teria conhecido sua gente logo na primeira semana de namoro, tamanha a insistência. Mas ele adiou o quanto pôde o encontro, para evitar precipitações. 

Naquele domingo, no entanto, não houve como escapar. Emília lhe contou que seria aniversário de oitenta anos de sua avó e que toda a família estaria presente. Se ele não comparecesse, a magoaria. Então aceitou.

Valter era executivo de uma empresa multinacional e sabia que não ficaria muito tempo na cidade ou talvez no Brasil, porém não comentava desses assuntos com a namorada. Melhor seria deixar que as coisas fluíssem naturalmente.

Mas voltemos ao almoço. Um pouco nervoso porque o contato inicial com os sogros seria com tamanha plateia – a rua estava cheia de carros – ele estacionou, suspirou fundo e foi até a porta da casa. Mal tocou a campainha e uma mão forte o puxou para dentro. Parecia até que o aguardavam ou que era ele o prato principal daquele banquete.