Um amor acima do próprio amor


Confesso que fui apaixonado por Angélica desde criança. Nossos pais eram amigos e a gente sempre se encontrava nas festas em comum. Ele também demonstrava gostar de mim. Um dia, já no desabroche do corpo, trocamos beijos numa quermesse da igreja, só que adolescente não dá sequência nos fatos. Alguns anos mais tarde começamos a namorar sério.

Tudo muito bom e agradável não fosse Angélica portadora de um distúrbio mental qualquer. Na normalidade de seus dias era uma moça risonha e agradável, que interagia com todos e possuía um ótimo convívio social. Mas nas crises da doença ela se tornava um ser medonho, perigoso e frio, e não faltou quem lhe atribuísse possessões demoníacas e coisas do gênero.

Qualquer pessoa prudente teria saído desse relacionamento perigoso, mas eu não podia porque era apaixonado por aquela mulher. Ela se mostrava deslumbrante aos meus olhos e eu via em seu rosto lindo a imagem duma imaculada pessoa. Coisas do amor, é óbvio. E foi então que nos casamos. Nem minha família e nem a dela queriam. Estavam certos, como mais tarde eu descobriria. A dela porque queria interná-la de vez numa clínica psiquiátrica e se livrar do fardo. A minha por razão evidente. Então fizemos nosso enlace sozinhos mesmo, ali na capelinha próximo da casa onde há um ano já morávamos juntos, e só alguns amigos compareceram.

A morte de Iolanda


Não saberia dizer o porquê de Iolanda ser forçada a se casar com aquele homem. Eles não tinham nenhuma afinidade, eram apenas conhecidos. Se bem que Alberto, esse seu nome, era muito amigo do pai dela e os dois tinham alguns interesses em comum. Mas ninguém era rico ali, e um casamento assim, sem significativas vantagens patrimoniais, não se justificava.

Fato é que, depois de um breve namoro arranjado, o enlace se consumou. Foi uma bonita cerimônia na igrejinha perto da casa de todos e uma discreta festa no jardim. A noiva estava triste mas não demonstrava para não desagradar seu pai. A mãe havia falecido em seu parto. No mais, como diziam os antigos, com o tempo o amor chega. 

Mas não chegou. Com pouco prazo Alberto se mostrou uma pessoa obsessiva e cruel. Judiava da esposa, privava-a do convívio das amigas e do pai. Era ciumento ao extremo. Iolanda permanecia em silêncio, não reclamava com ninguém por medo de que chegasse ao ouvido daquele a quem mais amava.

Moça distante

Moça tão distante nas alturas infinitas, sentada ali na beira da praia ao entardecer, solidão que transpassa sua alma! Se o vento bate contra, diria que chora, mas isso não posso afirmar com convicção. Estou aqui há cinco dias e em todos ela sempre está ali, naquela rocha grande, à hora dos anjos, quando o sol fincado pela flecha da noite agoniza e sangra sua dor no poente infinito.

Às vezes sinto rompante de me sentar ao seu lado, ainda que em silêncio permanecesse, só para sentir a vibração de seu espírito e a fluidez das amplitudes de sua alma. Mas sei que não devo porque esse é o momento de sua meditação profunda, de seu encontro com algo que ela acredita como sagrado.

E enquanto permaneço cá neste paraíso do Caribe, não posso me ausentar da presença da moça distante, e tão próxima, como se, sem mim, ela se perdesse nos labirintos de conjecturas do pensamento e não pudesse mais voltar. Ora, como se voltar fosse algo imprescindível!

Quer saber, amanhã vou lá. Se ela aparecer aqui em frente minha cabana eu vou me sentar ao seu lado e, sem mais nem quê, dar-lhe um beijo tão espetacular que reviverá o próprio sol e o fará retroceder de sua morte. Mas só amanhã que hoje vou apenas contemplar.

Adriano Curado

Dia da Mulher



Hoje é o Dia da Mulher e eu quero deixar aqui registrada minha homenagem a esses anjos de luz com que o Criador presenteou a Terra. 💙

Na etapa evolutiva ainda por vir, tenho absoluta certeza de que todas as mulheres serão rainhas no coração dos homens e uma sociedade melhor se criará.

Feliz Dia da Mulher. 💙

Adriano Curado

O apanhador de sonhos

Quando Marília ganhou o apanhador de sonhos de João, seu marido, não imaginava que sua vida fosse mudar tanto. A princípio ela supôs ser apenas um enfeite de casa, algo como uma decoração hippie, coisas desse tipo. Mas estava bem enganada.

Marília e João eram casados recentemente, de dois meses apenas, e como ele era esotérico do tipo acampar em Alto Paraíso para ver discos voadores, deu a ela o apanhador de sonhos. Uma maneira de se lembrar dele no tempo em que estivesse fora, disse no dia do presente. Ele era viajante, representante comercial de uma empresa de vendas e por isso vivia na estrada.

Marília ganhou o presente no domingo, e já na madrugada de segunda-feira percebeu um barulho estranho na varanda onde o colocara. Chegou a pensar num ladrão, mas quando prestou mais atenção viu que vinha daquele círculo de cipó recoberto com capim dourado. Ela achegou-se devagar, pés descalços inaudíveis no tapete, e então ficou extasiada com a imagem à sua frente. É que, tal qual um aparelho de televisão, aquele objeto exibia no tal círculo uma imagem bem nítida de alguém que caminhava por um campo deserto na direção de uma torre medieval. A cena durou segundos e de repente se apagou e o ambiente escureceu. Marília ficou extasiada com aquilo, e embora supusesse que sonhava, pareceu a ela bem real tudo que presenciou.

O aventureiro sem noção

Essa mania que Fernando tinha de sempre sair sozinho mato afora, sem dizer a ninguém onde ia, era um perigoso meio de se expor ao desconhecido. E não adiantava argumentar com ele. Seus colegas no trabalho, seus familiares, os amigos, enfim, todo mundo já tinha avisado. Eles desconversava, inventava mil desculpas e quando a prensa apertava, jurava que só se aventuraria dali em diante acompanhado. Mas era chegar um feriado emendado e lá ia o aventureiro nalguma nova aventura solitária. Certo dia alguém indagou a ele o porquê de não gostar de companhia nessas andanças e ele respondeu que o silêncio era o que mais apreciava nesta vida, seu vinho de rótulo raro, o encontro com a essência da alma.

Fato é que, chegado o Carnaval, Fernando arrumou as tralhas na mochila e se foi para uma mata escura e cerrada no Planalto Centro do Brasil. Como era costume, ninguém soube onde. Acampou perto de um riacho e à noite comeu uns enlatados que havia levado. Para segurança pessoal, porque por aqui sempre há relatos de felinos imensos e ferozes, trazia consigo uma pistola e uma caixa de balas. Dormia com a arma debaixo do travesseiro, embora um amigo o alertara há pouco que, no caso de um ataque de onça, por exemplo, ele não teria tempo sequer de empunhar a arma, quem dirá atirar. Mas ele era cabeça dura, como já o dissemos.