A janela da alma


Cá está a janela abandonada, ausente de corpos que a habitem, desesperança de se reabrir ao mundo. E por ali já desfilaram tantas serenadas para as sinhás e já se discursou eternidades para os coronéis! E o quanto já se espionou sem ser visto, pelas frestas das tabuletas anônimas! Agora a janela está ali, abandonada na tapera desacorçoada, deixada ao humor do tempo implacável e esquecida do glamour impactante de outras eras. Vai desaparecer com a casa e levará junto a história mal contada dos amores proibidos. Vai para a região das lendas sem sequer ter deixado a dos sonhos ou excursionado pelas almas combalidas dos poetas esquálidos. Ali estava a janela abandonada...!

Adriano Curado

Mariana, a louca


A moça Mariana morava próximo aqui de casa mas ninguém tinha acesso a ela. Conhecida como A Louca, ela passava os dias solitária num balanço no quintal da casa. Seus pais impediam que convivesse com outras pessoas, talvez por vergonha de seu estado mental. E o isolamento chegou a tal ponto que eles mesmos a alfabetizaram. Quando saíam de carro, ela era camuflada pelos vidros escuros. Se a faxineira aparecia duas vezes por semana, A Louca era trancada no quarto. Família rica e tradicional na rua, podia se dar ao luxo de manter um mundo à parte para a filha.

Ocorre que o destino às vezes prega peças na gente. Um acidente de carro vitimou seus pais e A Louca ficou sozinha em casa. A coitada não tinha outros parentes. Como todos na ruas estavam acostumados a ignorá-la, não se deram conta de que, uma semana depois, ela ainda estava ali no balanço. Eu soube porque podia vê-la da janela aqui de casa. Decidi ajudá-la, embora temesse ser atacado porque A Louca bem que podia ser violenta. 

O HOMEM QUE SE NEGOU A FALIR


No dia em que foi anunciado a Valter Moreira que ele estava falido e que precisaria vender tudo que tem e ainda ficaria devedor, nesse dia, todos se escandalizaram no tribunal com sua gargalhada. Esperavam que ele se desesperasse e o descontrole tomasse conta de si, mas ao contrário disso ele se voltou para o juiz e disse: “Quem é você para sentenciar que estou falido se ainda me sinto rico?” E após dizer isso deu as costas e se retirou do plenário sem ao menos assinar a ata da audiência.

Enquanto a cidade estava em rebuliço e os credores corriam para seus advogados para habilitar logo na falência, Valter tranquilamente se dirigia até o escritório do libanês Jamil Kaled e lhe propunha um negócio irrecusável: o ricaço quitaria sua dívida de um milhão de reais e em troca ele lhe devolveria cinco milhões em um ano. O velho negociante olhou demorado para Valter, brincou com a caneta que tinha na mão e antes de responder indagou:

Banquete em família

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Foto Adriano Curado
Aquele era o primeiro encontro de Valter com a família de Emília, uma moça que ele conheceu casualmente há um mês, quando começaram a se relacionar. Se dependesse dela já teria conhecido sua gente logo na primeira semana de namoro, tamanha a insistência. Mas ele adiou o quanto pôde o encontro, para evitar precipitações. 

Naquele domingo, no entanto, não houve como escapar. Emília lhe contou que seria aniversário de oitenta anos de sua avó e que toda a família estaria presente. Se ele não comparecesse, a magoaria. Então aceitou.

Valter era executivo de uma empresa multinacional e sabia que não ficaria muito tempo na cidade ou talvez no Brasil, porém não comentava desses assuntos com a namorada. Melhor seria deixar que as coisas fluíssem naturalmente.

Mas voltemos ao almoço. Um pouco nervoso porque o contato inicial com os sogros seria com tamanha plateia – a rua estava cheia de carros – ele estacionou, suspirou fundo e foi até a porta da casa. Mal tocou a campainha e uma mão forte o puxou para dentro. Parecia até que o aguardavam ou que era ele o prato principal daquele banquete. 

A sorte é traiçoeira

Foto Adriano Curado

E aconteceu que, depois de haver perdido tudo para o Maneco numa mesa de carteado, João resolveu se matar por receio de encarar a esposa e filhos em casa. É bem simplista uma solução assim. O sujeito faz as opções erradas na vida e quando as coisas desandam, parte dessa para outra. O pior mesmo, pensa ele à procura de uma árvore para se enforcar, é que já estava prestes a virar o jogo e recuperar o dinheiro perdido, mas daí a sorte se foi e ele apostou a casa onde mora.

Aquela mangueira ali parece ser uma boa opção. Tem troncos grossos e na altura certa: nem tão baixos que permitam que o instinto de sobrevivência o force a tocar os pés no chão, nem tão altos que exijam uma escalada. É, essa serve! Joga então a corda mais acima, senta-se no galho de onde pretende saltar, passa o laço no pescoço e se prepara para o mergulho mortal. Se tiver sorte e o pescoço se partir no baque, melhor. Se isso não acontecer terá de morrer asfixiado. 

Na beira da estrada


Hoje deparei com essa linda árvore. É a caraíba do cerrado que com seus cachos de ouro se deixa contrastar com o céu de imaculado azul. Ela sofreu com a queimada que tingiu seu tronco de negro, mas ainda assim se recusou a deixar de florir. Apeei do carro para fotografá-la em todo o seu esplendor.

Adriano Curado