O cego que via



Conheci este final de semana uma pessoa iluminada chamada Adauto. Ele nascera um menino comum e sadio, mas com o tempo adquiriu uma doença na retina e ficou cego aos dezoito anos. Hoje deve andar lá pelo meio da casa dos vinte, embora com seu corpo avantajado e voz de barítono aparente mais. Mas o que melhor caracteriza a pessoa desse cego físico é o fato de ele enxergar com a alma. É isso mesmo, ele se recusa a ser cego, a se entregar aos obstáculos da vida e se deixar leva pelo desespero e medo. Tenho absoluta certeza que a maioria de nós entraria em pânico e daria a vida por encerrada, caso um diagnóstico médico nos sentenciasse à escuridão. Mas Adauto é mais tranqüilo e até faz piada com seu estado atual.

Tudo isso me fez lembrar o livro “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago, onde todos eram cegos, mas a única pessoa que enxerga não consegue mudar o destino dos demais. Creio que todos nós somos de alguma forma cegos, pois nem sempre conseguimos vislumbrar à nossa volta a absoluta realidade das coisas. Ainda acreditamos que o político que elegemos será honesto e competente, que o taxista não dará mais voltas que o necessário, que o corretor de seguros é nosso amigo e fará o melhor por nós etc. Não vemos, ou não queremos ver, a realidade de cada um e nem conseguimos captar na totalidade a essência deste mundo. Talvez isso seja uma arma desenvolvida no nosso íntimo para não enlouquecermos. Pode ser. Mas a verdade é que não vemos tudo que devemos ver.

No caso de Adauto, no entanto, creio que ele vê mais que eu. No seu mundo interior, embora ausente o sentido da visão, ele é capaz de distinguir cada acontecimento do exterior e a portar de conforme. Não é iludido pela pressa do cotidiano e nem se deixa levar pelo canto da sereia que nos seduz constantemente.
Enfim, ele é um homem feliz.


by Adriano César Curado

Um comentário:

Anônimo disse...

Gostei demais do texto sobre o cedo que via. Sim, muitos de nós temos olhos mas não vemos o que realmente está a nossa volta. Não é raro que vejamos apenas o que desejam ou esperam de nós, numa comportamente social adequado.
Se os olhos são mesmo as janelas da alma, então creio que há muitos espíritos carecendo de luz por aí.

Sandra Mara Rodrigues Andrade