Por um mundo melhor

Vivemos numa época bastante complicada, e isso em muitos sentidos. As crises institucionais se agravam por todos os lados, vemos nossos congressistas envolvidos em escândalos todos os dias, lemos nos jornais atrocidades inimagináveis até há pouco tempo e ainda somos bombardeados por informações desnecessárias que nada acrescentam à nossa vida. Gostaria eu de viver num mundo bem melhor, lugar onde não existissem tantas mazelas humanas, onde as pessoas fossem mais solidárias e pensassem no coletivo, em detrimento de si próprias. Mas a realidade está aí, gritante para quem tem ouvidos, e pouco podem fazer nossos limitados recursos de modificação de situações e estados.

Então, que fazer? Você me perguntará. E eu lhe respondo que temos de passar o mais incólume possível, procurar impedir que pessoas e fatos desagradáveis alterem nosso humor, extravasem nossa resistência à exposição inevitável do cotidiano. Se lemos uma notícia de um cruel assassinato no jornal, o máximo a ser feito é acalentar breve sentimento de pesar pela vítima e logo em seguida esquecer definitivamente a história. Isso porque nada podemos fazer para alterar aqueles acontecimentos. A morte já está concretizada e o assassino prestará contas à justiça. Se não esquecemos instantaneamente a trágica notícia, um sentimento de revolta e revanche tomará conta de nosso ser e nos fará um mal absolutamente desnecessário.

Não quero dizer com isso que devemos ser alienados, que não trabalhemos para melhorar o mundo que nos cerca. De forma alguma. Temos, sim, que batalhar a cada dia pela criação duma sociedade melhor que aquela que herdamos dos que vieram antes de nós. Mas é uma batalha lenta, como ser mais cortês no trânsito, tratar melhor nosso próximo e por aí vai. Labutar em campos que não nos dizem respeito, ficar alarmado com acontecimentos distantes, protestar porque todos o fazem, infelizmente trará mais malefícios que bondades. Enquanto nos irritamos com aquela criança que morreu no confronto entre traficantes e polícia nos morros do Rio, distraímos nossa atenção ao passar por uma esquina onde outra criança, esta sim, bem próxima de nossos braços caridosos, pede insistentemente um prato de comida.

Já pensou se os jogadores de futebol corressem indiscriminadamente por todos os espaços do campo? Logo no primeiro tempo da partida estariam exaustos e incapazes de concretizar seu objetivo maior, que é o gol. Mas eles são profissionais e sabem dividir o campo entre si, de modo que normalmente o zagueiro fica na retaguarda, enquanto o atacante avança pelo terreno inimigo. Da mesma forma somos nós. Por que nos alarmamos com a fome na África, se nada podemos fazer pelas pessoas de lá, ou pior que isso, nada fazemos pelas pessoas de cá, que necessitam urgentemente de nós? Morre bastante gente nas regiões mais áridas do Brasil, como o nordeste, sem que qualquer emissora de televisão vá lá cobrir o fato. Já virou rotina! Triste rotina!

Na divisão do “campo” da vida, devemos ser profissionais, deixar de desperdiçar tempo com aquilo que não depende de nós e lançar olhares mais apurados para o que não queremos ver. Somente assim seremos úteis soldados na longa batalha do bem contra o mal.

Quem tem ouvidos, ouça!

by Adriano César Curado

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