Territórios Demarcados


     Ao analisarmos as atitudes do líbio Muammar Kaddafi, podemos aprender um pouco mais das nuances da personalidade humana e da tendência que há em todos nós de demarcar território. Isso deve vir lá dos tempos das cavernas, quando o homem precisava de um bom espaço para suas caçadas.


     Embora haja suficiente estoque de víveres no mundo para que sua população sobreviva bem, a ganância parece não ter limites. O tempo todo queremos demarcar um território maior de caça. Muitos motoristas não dão passagem, ainda que a preferencial não seja sua; no supermercado, feitas as comprar, há gente que sai em atropelo para resguardar um lugar melhor na fila; pegar um ônibus ou metrô, então, é retroceder à barbárie.


     Mas esses são exemplos pequenos do cotidiano. Pior mesmo são pessoas que precisam de um território de caça tão amplo quanto um país inteiro. É o caso de Gadaffi, no poder há 41 anos e sem disposição para abandoná-lo. Ou seja, quer matar centenas de milhares de pessoas porque elas aspiram a vontade de escolher seu governante, mas o ditador não concorda, pois sente que o país é dele. Sim, isso mesmo, Gadaffi quer a Líbia eternamente para si, e quando morrer (ó triste realidade, até os ditadores morrem!) pretende deixá-lo de herança para seu filho arrogante.


     Essa sensação de posse sobre todo um território e seu povo abrange também a China, o Irã, a Coreia do Norte, Cuba e por aí vai. São países em que alguém consegue derrubar a ordem constitucional vigente, institui as forças armadas como seu fiel cão de guarda e nunca mais quer apear do poder. Nesse amplo território que comandam, os ditadores são semi-deuses, mandam e desmandam, matam, violentam, confiscam a propriedade privada, expulsam o clero, dissolvem as associações civis etc. No entanto, todos eles têm gordas contas no estrangeiro, coisa na casa do bilhões de dólares, uma reservinha para o caso de algo não sair como o esperado.


     Existe uma máxima popular que diz: quer conhecer um homem, dê poderes a ele. Se você, caro leitor, estivesse no comando e sob seu julgo houvesse milhares de pessoas, seria um justo gestor ou um déspota capaz de muito para se perpetuar sentado ali no trono? Esta é uma pergunta sem justa resposta, pois nós, meros espectadores neste teatro do poder, provavelmente não alcançaremos jamais a posse do controle remoto.


     Porém se você ficou escandalizado como minha pergunta, então prove a sim mesmo que não é um Kadaffi da vida. Aja com mais humanidade com seu próximo, quer no trânsito quer no supermercado, seja paciente com as limitações alheias e não aprove quando a polícia atua fora da ordem.


by Adriano César Curado, escritor, poeta e historiador. Baixe gratuitamente seu livro DEUS MORA NO SEU INTERIOR ou entre em contado através de adrianocurado@hotmail.com
 
 

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