O poder do otimismo


     Esta semana fui pela primeira e última vez a um restaurante. Como estava sozinho, perguntei ao garçom qual a porção de determinado prato, ele me respondeu e fiz o pedido. Ocorre que a quantidade de comida que veio, diferente do que havia me informado, era o dobro. Eu não iria comer tudo aquilo. Chamei o responsável e o responsável pelo responsável, mas ninguém arredou pé. Pediu, tem que comer. Como não sou de discussão, mandei embalar numa quentinha a outra metade que não havia pedido. Prato sofisticado, não iria deixar de graça para os garçons! Restaurante chique, todo mundo com olhares pasmos em mim, mas ainda assim sai com a quentinha.

     Que vou fazer com toda essa comida?!, pensei. Entretanto, antes de chegar ao carro, vi numa praça um senhor com uma criança de uns quatro ou cinco anos de idade. Era um catador de papel, desses que empurram carrinhos pelas ruas. Aproximei-me, contei-lhe a história e perguntei se desejava aquela comida. Ele aceitou e com os olhos umedecidos me disse:

     ─ O senhor deve ser um anjo enviado por Deus.

     Tratei logo de desmentir. Anjo, eu?! Pobre de mim!

     ─ Mas por que diz isso?! fiquei curioso

     ─ Sou viúvo, crio essa criança sozinho. É que hoje não consegui catar papel suficiente. Já são três da tarde e não comemos nada. Há pouco meu filho me disse que estava com muita fome. Cortou meu coração, mas não sabia o que fazer. Aquele restaurante de onde o senhor saiu joga comida no lixo, misturada com serragem, que é para ninguém comer. E se eu for lá pedir, eles me expulsam .

     ─ Mas isso é um absurdo indignei-me.

     ─ Eu sou um otimista. De repente um pensamento me ocorreu. Então disse ao meu filho que Deus mandaria um anjo para trazer comida para a gente. E que seria a comida mais gostosa que ele já provou na vida. Isso foi há dez minutos atrás.

     Não sou nenhum anjo, obviamente, mas acredito que a fé daquele homem me atraiu para ele. Se eu fosse uma pessoa estourada, teria discutido lá no restaurante, chamado os órgãos do consumidor etc. Mas também não teria ajudado aquele pai otimista, que não deixava transparecer ao filho suas fraquezas e medos. Nos olhos do menino, vi que seu pai é seu herói. E o meu também.

by Adriano César Curado


7 comentários:

Aninha Zocchio disse...

Adriano!
Que mensagem mais linda!
na verdade, se notarmos bem, todos temos um momento celestial, em que somos de alguma forma portadores de boas noticias, de um abraço, de um carinho, até mesmo de um alimento.
Se pararmos para olhar mais a nossa volta, poderemos notar que há muito a ser feito, e que o pouco para nós é tanto para outros!
Não sei sobre sua crença, mas Fé e Deus, resposta na medida e na hora certa!!
Abração!!!!!
OBS: Vou compartilhar com meus amigos e manter o seu nome ok?

Charme disse...

adorei a mensagem e nos últimos tempo isto é mais comum do que queríamos que fosse. a fome invadiu os menos favorecido economicamente...e a miséria invadiu a alma das pessoa "economicamente mais favorecida" porém pobres e miseráveis de alma e prisioneiros do seu próprio sistema.....adorei o blog e ja to seguindo bjos

disse...

Caríssimo escritor Adriano, esta foi sem dúvida a melhor postagem que você já fez neste blog.

Eu chorei muito lendo o que você escreveu, e fiquei com um nó cá no peito, pensando nas vezes em que meti a mão na buzina para que um desses catadores de papel saíssem da frente do meu carro.

Por que será que somos assim tão insensíveis?! Será que é a pressa que nos torna menos humanos?!

O texto tem uma grandeza tão imensa que nos convida à reflexão.

Parabéns pelo que escreveu.

Severa Cabral(escritora) disse...

Boa noite meu dileto amigo!
Mas uma vez passando no seu recanto para ler essa crônica tão reflexiva que nos convida a sermos mais humanizados na hora de tratar nosso irmão...
Passa lá no meu cantinho e deixa teu rastro...
Bjssssssssssss

Malu disse...

Adriano,



Simplesmente lindo !!!
Sem comentários ...



Bjo e uma Tarde de Paz.

MARILENE disse...

Essa é a realidade que conhecemos. E se perguntarmos porque jogam fora ao invés de dar, encontrarão justificativas, pois ainda serão responsabilizados, legalmente, se alguém que recebeu os alimentos vier a passar mal.

Como reflexão,ótimo texto. Há sempre alguém precisando do que temos em excesso.
Abços

Fillipa disse...

Lindo seu blog :}
Estou te seguindo, se puder passa no meu blog para conhecer, beijos!