Ladrão de livros


     Este final de semana fui ao lançamento simultâneo de vários livros de uma coleção. Um amigo meu era estreante na literatura e resolvi homenageá-lo. Festa animada, bastante movimentada, dado ao prestígio de todos. Mas faltou organização. Normalmente, antes de o leitor chegar ao autor, ele compra o livro num balcão, dita o nome para a recepcionista, que anota num papelzinho e encaixa no exemplar. Ali naquele lançamento, no entanto, os livros estavam espalhados sobre a grande mesa onde os dez escritores davam autógrafos. O interessado, então, pegava a obra que lhe agradava e se dirigia diretamente ao autor.

      Estava eu ali próximo ao meu amigo quando, repentinamente, vi um garoto de uns doze anos furtar um livro seu. E repetiu isso com o escritor ao lado logo em seguida. Sua tática era a seguinte: ele alisava a capa, folheava umas folhas para disfarçar e depois corria os olhos ao redor, para em seguida sair sorrateiramente.

      A princípio pensei em chamar o segurança do local, mas depois mudei de ideia. Imaginei que, num país de tão poucos leitores, um menino furtar livros não é um pecado assim tão grande. Só que mudei de opinião ao segui-lo até a área lateral do salão e ver que conseguira a coleção inteira lançada naquela noite. Resolvi abordá-lo:

      Você gosta de livros?

     Ele deu um salto ao me ver e esbugalhou os olhos. Vi eu seu rosto que ele sabia que eu o flagrara e que não conseguiria me engabelar. Então baixou a cabeça e me confessou que adorava livros, devorava-os todos os dias, mas não tinha dinheiro para comprar. Obviamente que lhe dei uma lição de moral, papel que caberia ao seu pai ausente. Ele se dispôs a devolver todos os exemplares se eu não o entregasse.

      Fiz melhor que isso. Fomos juntos a todos os autores, e por orientação minha ele contou sua história – gostava de ler mas não tinha dinheiro. Por isso estava ali para “pedir” um livro, esse seria seu presente de final de ano. Dos dez autores, nove autografaram para ele com satisfação o presente. Apenas um não se tocou, e eu comprei seu livro e presenteei o garoto.

      Confesso que, ao ver aquela criança feliz com livros debaixo do braço, eu me emocionei. Ele sorriu para mim em agradecimento e foi embora com um brilho diferente no olhar. Acho que este país tem um futuro lindo, desde que os pais atuais façam sua parte na educação dos filhos.

Adriano César Curado

28 comentários:

Lara Mendes disse...

Você fez certíssimo, Adriano. Era sua missão naquele momento ser o pai ausente do garoto. Beijos.

Lilian disse...

Foi bom o seu exemplo. Vai ver aquele pai nunca conversou com o filho. Beijos.

Fernanda Soares disse...

Tadinho do garoto.

Querendo ler mas não tem dinheiro para comprar livros.

Nem tem quem o oriente.

Adorei em especial esta postagem.

Bjinhos, lindo

Aninha disse...

Temos mesmo que fazer nossa parte para melhorar o mundo em que vivemos. Lindo texto, meus parabéns e um beijão.

Fernanda disse...

Livros ou não, todo furto deve mesmo ser combatido.

Você me surpreende a cada postagem.

Bjs.

Janaina Cruz disse...

Eu amoooooooooooo livros Adriano, se pudesse moraria numa biblioteca.

Um garoto que tenta roubar um livro é quase perdoável, afinal de contas hoje em dia são poucos os que dedicam-se a deliciosa arte de ler...

Abraços

Carla Alencastro disse...

Eu também apoio o garoto que queria os livros, mas não sabia pedir.

Beijos.

Fabi disse...

A vida nos reserva cada surpresa! Onde já se viu, um ladrão de livros!

Beijos, querido.

Vanessa disse...

O diferencial é você é a forma amorosa com que trata todo ser humano.

Beijokas.

Adriana Vargas disse...

Adorei o texto.
Emocionante.
Obrigada por sua visita.
Abraços.

Jaqueline disse...

É tão fofinho você tentando melhorar o mundo!
*
*
* Beijokinha

Carol Fernandes disse...

Seu texto me deixou com o coração apertado. Dó do coitado do garotinho querendo ler mas sem livros!

Beijos.

Gislene disse...

Que bela história Amigo, que bela história.

Um abraço,

Gislene.

Marly Bastos disse...

O problema é que os alunos de classe mas baixa, por não terem outros meios de diversão, descobrem que os livros é uma maravilhosa maneira de viajar, ou seja, a junção do lúdico ao educativo, todavia os livros são caros e geralmente os pais nao conseguem comprá-los. Sabe eu quando dava aulas para o primeiro grau(sou professora de português) e geralmente cada professora tem 5 turmas, então reuníamos e faziamos uma lista com os alunos dos livros que gostariam de ler.Então cada turma comprava um título, e depois que liam nos entregavam os livros e a gente fazia um rodízio com os livros doados por eles, geralmente participavam umas 20 turmas. Isso dava oportunidade de lerem 20 livros por ano, com apenas uma aquisição.
E no fim do ano a gente fazia o mutirão da literatura e eles (os alunos) saiam doando os livros nos sinaleiros, nas praças e as pessoas recebiam com um sorriso, mesmo sendo um livrinho velho, passado pelas mãos de 20 adolescentes.
Adorei sua iniciativa, e o menino recebeu um bom presente e uma boa lição.
beijokas doces

Marilia disse...

Seu texto é simplesmente espetacular. E eu fiquei imaginando a carinho do garoto com os livros.

Beijos.

Fernanda Soares disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paula disse...

É mesmo uma pena que nosso país não consiga formar mais leitores.

Essa criança da sua história é uma raridade.

Linda postagem, poeta, beijos.

Ricardo Baobá disse...

Seu método de lidar com os desafios da vida é espetacular.

Meus parabéns pela impecável postagem, escritor.

Cíntia disse...

O amor é das mais cara formas de afeição humana.

O modo como agiu com aquele garoto foi uma prova de absoluto amor.

Beijos.

Severa Cabral(escritora) disse...

boa noite querido amigo!
Texto reflexivo e cheio de interrogações como exemplos...aplausos...
Bjs

Sheila - Blog "Passarinhos no Telhado" disse...

Que lindo meu amigo...
Quando essa coisa boa em ajudar vem da alma...dá nisso!

um abraço! E fique bem! :)

Piettro Andrade disse...

Você sabe mesmo como cativar seus leitores com postagens lindas. Meus parabéns. Isso faz de você um grande escritor.

A.C.C. disse...

A sabedoria está em saber ensinar os humildes.

Juju Porcino Loureiro disse...

ADRIANO,
GOSTEI DE SUA ATITUDE. VOCÊ ME FEZ LEMBRAR O GRANDE HENRI LACORDAIRE:

"De três coisas precisa o homem para ser feliz: benção divina, livros e amigo."

PARABÉNS E FIQUE COM DEUS!

Desnuda disse...

Boa tarde Adriano,

Que estória interessante e que cabe uma excelente reflexão sobre a educação e a responsabilidade que todos temos diante de fatos que não podemos e devemos ser omissos. Parabéns pelo seu gesto! Fico sempre tomada de euforia quando tomo conhecimento de pessoas com a sua capacidade de observar e intervir de forma tão consciente e correta. Estendo as felicitações a todos os escritores que também pensam e agiram num mesmo abraço em prol da educação e da cultura. O escritor que foi exceção é de fazer pena no tamanho da sua mesquinhez.

Uma vez li que é bom conhecer a obra e nem sempre o autor e este foi mais um fato que exemplifica a frase. No entanto ,aconteceu de ter conhecido a obra de um poeta num sebo cultural e gostei muito. Tempos mais tarde eu o adicionei numa rede social e disse que tinha adquirido um livro dele num sebo. Ele respondeu que achava ( não lembro bem o termo usado por ele) lírico as pessoas que freqüentam um sebo. Sem saber ( e ignorou esta questão) se eu tinha ou não condições de pagar e ficar atualizada nas suas obras mais recentes, de forma generosa, mostrando a sua grande alma além de admirável poeta, disse que gostaria de me atualizar ( o livro citado era antigo) e enviou-me de presente todos os exemplares dos seus livros! O nome deste poeta e ser humano maravilhoso ( que me sinto ingrata por não ter comparecido, ainda, nos posteriores lançamentos para agradecer pessoalmente) é Tanussi Cardoso.

Beijos com carinho

Alice in Wonderland disse...

Nossa, que lindo, Adriano. Realmente, era o que faltava a ele. Tem pais que além de não incentivar, recriminam o hábito da leitura como uma "perda de tempo". Parabéns pela atitude, com certeza essa lição ficará pra sempre na vida dele; uma emoção insquecível tanto pra você, quanto pra ele. Espero que ele siga adiante com o que aprendeu!!! Bjo pra você e desculpa o sumiço. Adoro ler o que você escreve, mas estou corrida mesmo. Estarei sempre por aqui, pode ter certeza. Um abração,
Alice Xavier

Angella Reis disse...

Fez-me recordar do livro A Menina que roubava livros. Emocionou-me a tua narrativa, a história do garoto em si. Que bom que estava presente para orientá-lo. O amor pelos livros foi tão grande que ele não pensou, cometeu um ato errôneo. Mas quem não erra não é mesmo? A todos deve ser dado o direito à segunda chance sem julgamentos precipitados quanto ao caráter. Muitos agem pelo calor do momento e mais tarde vem a arrepender-se.

Infelizmente nem todos os pais tem condições de comprar livros para os filhos, e muitos não sabem o valor que tem um livro, O governo devia investir mais em livros para as escolas, não somente em didáticos, mas literários. Mas os próprios interesses estão mais em jogo.

Um abraço!

Luks Vieira disse...

Que história linda... mas sempre encontraremos um do contra né? Afinal o que deu na cabeça de um autor negar um livro (ainda mais com a sua abordagem)... mas temos que pensar positivo...rs. (tomara que esse autor tenha sucesso na vida literária, pois como ser humano tenho minhas dúvidas)... desculpem o desabafo...rs.
Att.,
Luks