O pintor de anjos


     Morava lá perto de casa e pouco sei sobre ele. Não o conhecia muito, mas das poucas vezes que por lá apareci, deixou escapar que era sozinho do mundo, viúvo, sem filhos ou parentes conhecidos. Na garagem de sua casa montou um ateliê para pintar quadros. Só figuras de anjos, e era cada um mais lindo que outro. Certo dia, pediu-me aquele velho homem que eu deixasse dois quadros seus num marchand, e assim fiz. Continuei a visitá-lo esporadicamente, envolvido com meu cotidiano corrido. Ele sempre insistia que eu ficasse, que provasse do seu café (bastante amargo), que ouvisse suas histórias, que desse palpites nas pinturas. Solidão, coitado. Mas eu pouquíssimas vezes o atendi, e quase sempre me despedia com uma desculpa de compromissos – hoje nem me lembro quais eram.

      Então ele adoeceu, ficou internado inconsciente na Santa Casa de Misericórdia, onde eu (apenas eu) passava para visitá-lo quando dava. Morreu há três anos numa manhã chuvosa. Acredito que um dos anjos de suas pinturas tenha vindo buscá-lo. Como não havia herdeiros, seus bens foram desapropriados pelo município. E estranhamente quadro algum foi encontrado.

      Lembrei-me hoje desses acontecimentos porque logo cedo a campainha de casa tocou e era um serviço de entrega. Dentro da caixa havia um cheque generoso e um cartão daquele marchand lá de bastante tempo atrás. Os dois quadros do velho foram vendidos por uma pequena fortuna. Que faço agora? Ficar com isso não posso. Dar o dinheiro para a prefeitura, então, nem pensar, por razões óbvias. Decidi doar.

      Sacrifiquei minha hora de almoço e fui até uma creche que cuida de crianças carentes. Lá tem uma escolinha de oficina de artes, com alunos pobres de pés no chão e muita carência de material escolar. Chamei a supervisora, expliquei-lhe o ocorrido (antes que achasse que a caridade era minha) e lhe entreguei o cheque. Ela me abraçou e chorou, disse que naquele dia não havia nada na despensa para preparar o almoço das crianças.

      Isso foi agora há pouco, mas eu escrevo este texto com lágrimas nos olhos. Acho que é um certo remorso porque fiquei tão pouco tempo ao lado daquele homem sábio e bom. Ou talvez seja constrangimento de ter eu uma situação financeira boa enquanto tantos passam por privações. De uma forma ou de outra, dentro de minhas limitações ajudei a dar um pouco de luz aos pequenos anjos daquela creche.

Adriano César Curado

17 comentários:

Marilia disse...

Não faça isso comigo, Adriano. Li seu belíssimo e perfeito texto e borrei toda a maquiagem aqui no serviço. Mas valei a pena, você sabe manipular emoções com as palavras.

Fabi disse...

É isso mesmo. Às vezes estamos tão envolvidos com coisas e pessoas sem importância, que não paramos para reparar à nossa volta. E acontece de deixarmos passar o convívio com quem realmente val a pena. Linda a sua postagem. Beijinhos de bom final de semana.

Cíntia disse...

Que pena que você não curtiu um pouquinho mais esse pintor. Eu gosto muito de conversar com pessoas idosas, elas sempre têm muito a nos acrescentar. Sua postagem é um mimo e eu adorei. Beijocas e bom fim de semana.

Fernanda disse...

No final, acho que você fez o que ele esperava de você. Se ele pintava apenas anjos, é porque gostava da pureza e da meiguice, e isso está presente nas crianças. Beijo, meu querido.

Aninha disse...

Ah, a pressa! Ela é nossa inimiga maior. De repente, quando despertarmos, teremos corrido tanto que já chegamos ao fim da vida. Sua postagem é oportuna porque alerta para o instante de dar um tempo nesse hipnotizo do dia-a-dia e prestar mais atenção da simplicidade de momentos únicos. Adorei a postagem. Beijos com carinho.

Carla Alencastro disse...

Nossa, ainda bem que você teve o bom senso de não dar o dinheiro para o prefeito. Já pensou o que ele teria feito com o cheque? Doar para as crianças carentes foi sem dúvida a melhor decisão. Mas, cá para nós, precisava escrever essa história de forma assim tão emocionante? Chorei mesmo, de escorrer no queixo. Beijão, meu lindo.

blog. da Tereza Maria disse...

Olá meu querido
Mil perdões pela ausncia, muito trabalho.
sempre
É sempre muito agradável passear por esse espaço e ler suas postagens.
Obrigada por sua carinhosa visita e comentário
Lhe espero sempre!
Um abraço poético!

Fabiano disse...

Quem sabe esse senhor também era um anjo, que estava cá na Terra para lhe testar a honestidade?! Parabéns pela postagem. Abraços.

Piettro Andrade disse...

Postagem muito linda, Adriano, vc consegue emocionar seus leitores. Meus parabéns e um ótimo final de semana.

Cleide disse...

Maravilhoso texto!!! Muito reflexivo tbm...
Parabéns!!!

Severa Cabral(escritora) disse...

Boa tarde meu querido amigo!
Por onde andas que não te vejo...nem visitas os amigos ...
Mas estou aqui para te oler e deixar meus desejos ;Que Deus na sua infinita bondade te der muita luz para continuares escrevendo textos lindo e emocionantes como esse,que encanta quem ler...
bjssssssssssssssss

Lívia G. disse...

Estou sem palavras.
Literalmente.

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Peço, com todo meu coração, que você veja minha última postagem. É muito importante pra mim! Assim que puder da uma passadinha lá? Muito obrigada, beijoss!

blog da Paraguassu disse...

Adriano, meu querido amigo,
Esta postagem deixou-me muito emocionada. Você realmente fez a coisa certa. Doar a quem precisa é um imenso ato de bondade e amor ao próximo. Você fez o que o seu velho amigo queria que fosse feito. Alegre-se, portanto, pois vc foi uma ponte de amor entre Deus, seu amigo e a entidade que recebeu a doação. Que linda oportunidade de pensar nos outros, antes de pensar em si mesmo.
Parabéns, querido. Digo-lhe que, com certeza, não é sempre assim que ocorre em nossos dias. E feliz é aquele que serve de intermediário entre Deus e os necessitados.
Um grande beijo em seu coração e que tenhas uma semana com muita paz e luz.
Maria Paraguassu.

Paula disse...

São anjos como vcê que fazem este mundo mais brilhante. Linda postagem. Beijokas.

Lilian disse...

Lindo esse texto seu sobre anjos e caridade. Meus parabéns e um beijo.

Fernanda Soares disse...

Que lindo... chorei.

Carol Fernandes disse...

Confesso que você me fez chorar. Seu texto é emocionante e perfeito. Beijos.