O último julgamento

O Juízo Final - De Michelangelo
     Eu trabalhava como advogado criminalista e um dia recebi no escritório a ilustre visita do juiz da cidade. Ele foi me pedir um grande favor. Contou-me que estava preso, prestes a ser submetido a julgamento, um assassino, autor de um crime terrível, mas que nenhum advogado queria defendê-lo. Como eu atuava na área e era amigo daquele juiz, concordei em defender o réu, embora nada fosse receber por isso.

     Comecei a me arrepender depois que fui ao fórum e li o processo. Um jovem casal fazia sexo numa praça, quando passou o maníaco e, ao ver a cena, sacou um punhal e apunhalou o rapaz. Depois correu atrás da moça e a esfaqueou também. Ele morreu e ela escapou.

     No dia do julgamento, plateia lotada, presença dos sete jurados sorteados, entra o bandido. Cara amarrada, olhos vermelhos, semblante de louco. Era grande e musculoso. O promotor de justiça atacou-o impiedosamente, num bombardeio capaz de destruir qualquer argumento da defesa. Quando o juiz me passou a palavra, eu estava trêmulo, perdido, sem saber que dizer. Então disse aos jurados que ele era um homem muito conservador, que respeitava os bons costumes, e que ao ver aquele casal naquela situação, em plena via pública, perdera a cabeça e cometera o crime. Nesse momento, levanta-se a moça sobrevivente, suspende o vestido e, semi-nua, mostra aos jurados as cicatrizes dos golpes. O juiz mandou prendê-la por interromper o julgamento e eu agradeci pela deixa. Agarrei firme na oportunidade e pedi clemência para o réu, mostrando que nem seu advogado tinha direito de defendê-lo em paz.

     ─ Para que julgá-lo? ─ indaguei, dramático. ─ Se ele já está condenado? Ele estava forçado a assistir aquela cena grotesca de sexo sem nada poder fazer? Saibam que nem a mãe dele está aqui hoje porque é uma senhora doente e ele a sustenta. Ao lançá-lo na cadeia, estarão também condenando sua velha e bondosa genitora.

     A história da mãe eu li no processo. Sentei-me e notei um silêncio estranho no ar. No momento da votação, dos sete jurados, três já estavam a meu favor. Com o coração disparado, eu me sentia dividido. Se o absolvesse, teria o mérito de conseguir uma absolvição impossível, mas libertaria um maníaco. Ele foi condenado com um voto de diferença.

     Mas o pior estava por vir. Naquela noite, a cadeia da cidade foi ataca para libertarem um chefão do tráfico de drogas. Para sucesso do plano de fuga, explodiram uma subestação de energia elétrica e a cidade quedou no escuro.

     Fique até tarde na rua, na companhia do juiz, enquanto aguardava a luz voltar. Mas como não voltou, retornei para casa. E ao estacionar na minha garagem, antes de fechar o portão, topei com o assassino bem na minha frente. Confesso que achei que me mataria de repente, sem palavra alguma. Só que ele me estendeu a mão e disse:

     ─ Aproveitei para fugir da cadeia também. Mas antes de ir queria agradecer o doutor pelo que fez por mim. Ninguém nunca me defendeu assim e nem falou aquelas palavras bonitas sobre minha mãe. Adeus.

     Nunca mais o vi. A polícia jamais o recapturou. Porém jurei para mim mesmo que por dinheiro algum defenderia outro criminoso. Aquele foi meu último julgamento.

                               Adriano Curado

11 comentários:

Alê disse...

Caramba!

Que história,

blog. da Tereza Maria disse...

Muito comovente...
Muito comovente mesmo
É um fato real?
Vim agradecer sua suave visita e estou aqui estática diante desse texto.
Querido, só Deus é capaz de emitir julgamento. Parabéns por ter sido o ULTIMO
Um abraço poético
Ps; Que a vida lhe traga sempre ao rosto esse belo sorriso

allmylife disse...

Esta profissão é difícil, é preciso mta sabedoria p saber aguentá-la...

Severa Cabral(escritora) disse...

Boa tarde querido amigo!
Sempre prazer renovado voltar ao teu cantinho.estava com saudades e me perguntando por anda meu amigo.Chegando aqui vejo que entrou de férias e usufluiu das belas paisagens baianas.Eu tbm estive fora da net e usufluindo das belas praias que minha Paraiba oferece.Agora de volta,é hora de visitar os amigos e matar saudades...
Seu texto me emocionou de tal forma que serve para análise da vida real.Que história vc nos contou amigo...
bjsssssssssssssssssssss

Maíra Cunha disse...

Olá Adriano, gostei muito do blog e estou seguindo, te convido a conhecer o meu:

http://fazdecontatxt.blogspot.com

Ricardo Baobá disse...

Apesar do susto que vc levou, todo criminoso tem direito a um defensor. Faz parte do direito à cidadania.

De qualquer forma, meus parabéns pela excelente postagem.

Vanderleia disse...

Eu ficaria imobilizada de medo desse bandido. Ainda bem que ele não queria nada com você.

Bjs.

Poliana Fonteles disse...

Nossa! Uma história bem escrita, com errendo interessantissímo!
Adorei isso aqui!

Lara Mendes disse...

Até nos monstros há sentimento de gratidão.

LInda Postagem.

Beijinhos.

Paula disse...

Acho que vc escapou por pouco.

Bjokas.

blog da Paraguassu disse...

Olá Adriano,
O que tenho para lhe dizer é que a Justiça de Deus é a mais perfeita que existe. O tribunal é a nossa consciência, que nos acusa ou nos absolve do que praticamos. E os débitos adquiridos serão sempre quitados, passe o tempo que passar.
No caso de sua narrativa, você, como advogado de defesa, agiu bem, ao meu ver, embora não lograsse o mérito de que o criminoso fosse julgado inocente. Gostei muito da postagem.
Quero convidá-lo para conhecer meu novo filhote: o blog RECANTO DA POESIA. Ficaria muito feliz e honrada se você aparecesse por lá, para prestigiar-me.
Um grande beijo,
Maria Paraguassu.