Racismo às avessas



     João e Marcos sempre foram bons amigos. Moraram a vida toda na mesma rua e, juntos, brincaram de bola, compartilharam namoradinhas, colaram na escola, coisas assim. Eram muito parecidos na alma, mas bem diferentes no corpo. É que João era branco caucasiano e Marcos bem negro. Pela amizade que nutriam um pelo outro, chamavam-se carinhosamente de “branquinho” e “pretinho”.

      Certo dia, João estava num barzinho quando viu Marcos passar do outro lado da rua e, como era costume seu, gritou ao amigo:

         Ó pretinho!

    No mesmo instante, Marcos reconheceu seu interlocutor e respondeu:

       Ó branquinho!

      Essa cena tão inocente feriu a honra de uma senhora negra que estava sentada no barzinho. Indignada com o que ela chamou de “extremado racismo”, telefonou para a polícia e em poucos minutos João estava apertado no parta-malas duma viatura. E de nada adiantou Marcos dizer que era uma brincadeira entre eles, que não havia malícia nem discriminação naquelas palavras e que não se sentia ofendido.

       A honra maculada aqui não é a sua disse o policial mas a daquela vítima e apontou para a senhora que chorava com as mãos no rosto.

     Lá foi João preso, a cara vermelha de vergonha, sorriso amarelo de constrangimento. No barzinho aquele silêncio de perplexidade. Chegaram à delegacia de polícia debaixo de barulho, pois os amigos da ofendida já organizavam um protesto contra o ofensor. O delegado o enquadrou em injúria racial, com pena de até três anos de cadeia, enquanto uma comissão dos direitos dos excluídos preparava um manifesto. A coisa só não tomou uma proporção nacional porque Marcos chamou a vítima e lhe disse algo ao pé do ouvido. E foram palavras certeiras, pois ela desistiu de abrir um inquérito policial contra seu ofensor.

      Mais tarde, quando os amigos finalmente puderam voltar para casa, João indagou:

       Que foi que você disse àquela mulher?
      Expliquei que a raça negra brasileira demorou um século para quebrar as correntes do preconceito, mas que ela, em apenas uma hora, conseguiu macular nossa dignidade.


Adriano César Curado

4 comentários:

A VIDA É UM ETERNO APRENDIZADO disse...

Boa noite amigo!
Um texto maravilhoso para refletir.A vida pregou uma peça.Eu tenho um amigo que chamo de negão ele se enche de orgulho.Cada um é cada um.
Grande abraço
se cuida

Alê disse...

Creio que essas correntes ainda persistem, maquiadas, camufladas,

Preconceito continua presente,

Infelizmente,



Um beijo!

blog da Paraguassu disse...

Olá Adriano querido,
Adorei sua presença lá no Recanto da Poesia.
Obrigada, mesmo!
Sua postagem mostra o que ainda acontece, embora haja, atualmente, leis que impeçam a discriminação racial entre as pessoas.
No caso de seu relato, uma inocente brincadeira entre dois amigos, quase levou um deles à condenação pela justiça dos homens, porque alguém achou-se ofendido com as expressões usadas por um dos amigos.
No entanto, para a justiça divina, todos somos iguais perante Deus e o que vale, com certeza, é o amor incondicional que nos une uns aos outros, sem necessidade de regras e leis para que tal amor seja expandido
e produza seus efeitos em nossa evolução espiritual.
Um grande beijo em seu coração, amigo.
Maria Paraguassu.

Severa Cabral(escritora) disse...

Boa noite meu amigo querido!!!!!!!
Falo assim ,mas vejo que deixei de ser faz tempooooooooooooo
Pois deixastes de visitar os amigos antigos,talvez para dar espaço aos novos.assim é a vida ...o circulo não se fecha ...por isso que vim ler um pouco mais de vc e deixar registrado minha passagem.Pois já passei por aqui outras vezes silenciosamente,mas hj resolvi soltar minha voz,kkkkkkkkkkkkkk
bjs e sejas sempre feliz!