Sementes de luz

Conforme já disse aqui, mudei-me para o interior de Goiás e agora vivo tranquilamente, uma vida pacata mas plena. No entanto, infelizmente tive que enfrentar o trânsito da capital goiana esta semana. Precisava protocolar um recurso no Tribunal de Justiça. Creio que me desacostumei com o trânsito, e quando entrei no fluxo intenso de tráfego de veículos, fechei sem querer um motoqueiro. Foi a quantia. Na parada do sinaleiro, ele se aproximou de minha janela com gestos ameaçadores. Eu de pronto me desculpei, pois estava mesmo errado. Não adiantou, ele persistiu nas ofensas e me olhava desafiador, como quem esperasse que eu redarguisse. Não disse nada, apenas ouvi em silêncio e quando o sinal abriu, partimos todos.

Eu poderia ter discutido com aquele nervoso motoqueiro, quem sabe até descido do carro e brigado com ele. Mas preferi o silêncio. Sua reação foi desproporcional ao meu erro, ainda mais que eu havia pedido desculpas.

Sabe por que eu reagi assim sereno? Vou explicar. Imagine que você tem um bornal e que no interior dele há muitas e muitas estrelinhas multicoloridas. Agora pense que você é um semeador e que sairá por aí espalhando essas minúsculas sementes de luz. Esses grãos pequeninos estão contidos num sorriso amigo, num gesto de solidariedade, numa delicadeza sem retribuição, numa doação gratuita. Pronto, você semeou tudo que pôde.

Imagine então que essas sementinhas vão germinar no coração das pessoas, crescerão devagar e silenciosamente até que, quando seus hospedeiros se derem conta, já serão árvores frondosas, com raízes tão profundas que não poderão mais ser exterminadas.

Toda vez que sentir vontade de retrucar uma ofensa injusta ou de devolver algo na mesma moeda, RELEVE, RELEVE e RELEVE. Assim agindo, você espalhará mais uma sementinha de luz no imenso universo do coração humano. A pessoa que não recebeu o equivalente de dor e sofrimento que desejou a você, diante de sua atitude de inominado amor, não sabe aquela pessoa, mas já estará contaminada com uma das tais sementes. E no seu devido tempo, pois cada um de nós tem seu tempo, seu ofensor se tornará uma pessoa melhor, pois não achou em você um terreno fértil para a erva daninha do ódio.

Adriano Curado

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