O pôr do sol

Eis que se vai ali o sol nas encostas do horizonte. E chora lágrimas de sangue no borrão da tarde, como se não quisesse se despedir de minha alma. Daqui a pouco é noite e as criaturas das trevas despertarão e virão me buscar. Preciso me esconder, fazer de conta que durmo, não olhar debaixo na cama, porque não tardará a amanhecer para novo brilho do sol.

Isso é o que devo fazer: esconder-me de mim mesmo. Mas não consigo sair daqui, estou hipnotizado por este sol agonizante ali na linha do horizonte. Algumas nuvens intrometidas o cobrem, ofuscam minha visão, e tenho ânsia de pegar uma borracha e apagar o céu todo para que apenas o sol se mostre. Lá na frente o riacho vacila entre rochas, e a cor de nostalgia do poente faz correr entre margens a visão tenebrosa do sangue que se esvai.

Agora é noite. Dessas escuras e calmas. Calma até demais para alguém sozinho cá neste deserto de desilusões. Não sei o porquê de a escuridão (ou a penumbra) me despertar tristeza e melancolia. Mas é o que sinto. Bom momento para a reflexão esse da solidão sem imagens, sons ou cheiros. Nada a nos desviar a atenção. Nada a nos dar esperanças infundadas. O preto no preto. Nada mais.

Já estou há tanto tempo aqui? Indago isso porque vejo um risco alaranjado para os lados no nascente.

Adriano Curado

Nenhum comentário: