A fonte

Thaliana já havia sido advertida diversas vezes sobre o perigo de ir à fonte sozinha, ainda nos primeiros raios da aurora, e isso não só pela ronda de feras, mas também pela presença de homens estranhos. Mas o mal sempre acontece ao vizinho. 

Então naquele primeiro dia do ano, logo após a alvorada de pássaros e o despertar dos galos, lá foi ela novamente encher seu pote. Só que desta vez um peão da construtora da estrada federal a seguiu. Ia tão distraída a moça que não notou que o gatuno se esgueirava a poucos passos dela. 

Parou na fonte, provou da água e antes que pudesse mergulhar o pote, foi atacada por trás. Lutou ela uma luta valente e determinada, mas sucumbiu diante da força física do trabalhador braçal. E o que ele desejava, se dúvida havia, tornou-se claro quando tirou a própria roupa e depois começou a despi-la. A coitada estava exausta, trêmula, nervosa, não havia meios de escapar daquele homem forte e grande. E como uma presa dominada pelo predador, entregou-se à própria sorte.

Foi então que o improvável aconteceu.Outros trabalhadores da mesma obra ouviram seus gritos e acudiram para salvá-la do criminoso mal-intencionado. Thaliana ficou trêmula por muito tempo, sentada numa rocha e abraçada ao pote ainda vazio. Lembrava-se das histórias que sua mãe lhe contava quando criança, de que sua avó fora atacada naquela mesma fonte e que se casara com o assaltante porque era a tradição imposta às mulheres locais. E sua avó fora muito feliz com aquele homem que não era seu avô, pois sua mãe era filha do segundo casamento.

Ao retornar para a vila, Thaliana procurou relatos de outras mulheres que também passaram pelo mesmo incômodo e encontrou casos a perder a conta. É que o costume se instalara quando ali era uma mina de ouro, ainda no século XVIII, e se estendeu pelo tempo. Os homens escolhiam a donzela ideal para casar, assediavam-na, e se eram correspondidos, pediam ao pai dela permissão para noivado. Negada a petição, então a solução era recorrer à fonte.

Impressionada com o relato, Thaliana foi à cadeia pública visitar seu ofensor. Quis saber dele o porquê de atacá-la sem sequer conversar com seu pai. Ele ficou certo tempo sem compreender nada, mas quando notou na ingenuidade da moça, entrou no clima. Afirmou o esperto homem que se precipitara, que se tivesse nova oportunidade iria pessoalmente falar com o pai dela, e por aí vai.

Foi a contragosto que o comissário de polícia mandou soltar o preso. Mas colocou um cabo no seu encalço, até que ele fosse à casa de Thaliana. O pai dela, obviamente, negou qualquer consentimento ao relacionamento e ainda o expulsou dali com uma chibata. A moça passou a noite entre soluços e protestos de indignação. Não que gostasse daquele homem, já que sequer o conhecia e até o achava feio e estranho. Mas era uma questão de tradição, palavra sempre cultuada naquela casa.

Fato é que, no dia seguinte, bem cedo, lá foi Thaliana para a fonte com seu pote vazio. Só que o homem não apareceu. Nem nesse dia e nem nos demais. Esperto, já estava muito longe dali. E a moça ficou desconsolada com o pote vazio no colo. Achava que suas lágrimas encheriam aquele recipiente e esvaziariam seu coração despedaçado. Tantos anos de tradição estavam acabados justamente na vez dela.

Thaliana morreu solteira muitas décadas depois. Mas todos os dias ia à fonte encher o pote de água e lágrimas.

Adriano Curado

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