O catador de velórios

Marcondes não era uma pessoa má, mas uma mania feia o tornou indesejado na cidade. É que ele era um catador de velórios. Isso mesmo. Não podia morrer alguém que lá vinha ele filar café e biscoitos. Conhecesse ou não o morto, não perdia a oportunidade de lanchar e ainda aporrinhar os familiares do desafortunado.

Murilo era um dos que implicavam com Marcondes. E ao vê-lo num velório todo meloso para cima da viúva, boca cheia de bolo, biscoitos guardados no bolso, Murilo prometeu para si mesmo que, quando morresse alguém em sua família, ali não pisaria o catador de velórios.

E não é que, pouco tempo depois dessa promessa, a mãe do promitente morreu. O velório, como condiz com toda cidade do interior, foi na casa do morto. E entre flores e velas, lembrou-se Murilo que a visita importuna apareceria cedo ou tarde. Então tomou uma decisão radical:

— Fechem as portas da casa.
— Mas papai, os amigos e parentes ainda não chegaram todos.
— Não importa. Aquele catador de velórios aqui não pisa.

Tentaram todos demovê-lo dessa ideia, mas Murilo estava irredutível. Fincou o pé e pronto. Ninguém conseguiu mudar sua decisão. Pelo início da noite começou a chegar gente para visitar a família, porém depararam com a porta fechada e a casa escura. Saíram imaginando que o velório seria em outro lugar.

Marcondes apareceu do nada e meteu a não na maçaneta da porta. Surpreendeu-se ao perceber que estava trancada. Chamou, bateu palmas, gritou pelos de dentro. Por imaginar que não havia ninguém na casa, saiu à procura de prováveis locais do velório. Até no cemitério apareceu mas não viu viva alma. Então retornou para a casa do morto na certeza de que estavam ali dentro. Fez um estardalhaço imenso na rua deserta. A cachorrada despertou e começou a latir nervosa.

Ninguém respondeu. E o pior era a fome que o consumia. Só havia almoçado porque desejava tirar a barriga da miséria naquele velório. Tudo em vão. Foi então que lhe veio à mente um pensamento: esconderam-se de mim. Só pode ser isso. Estava ali por caridade cristã, desejoso de apresentar seus pêsames aos que sofrem e recebeu em troca uma desfeita desse tamanho.

Furioso com aquela situação toda, Marcondes encostou a boca no buraco da fechadura e gritou a plenos pulmões:

— Vocês aí dentro, enfiem esse defunto onde o sol não bate.

Adriano Curado

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