A tocaia

A Estrada Real era a principal artéria da província de Goiás, trânsito obrigatório de pessoas, animais e mercadorias. E pelo nome pomposo deveria ser uma via bem pavimentada e especialmente conservada. Mas nem de longe era essa realidade. De trânsito relativamente intenso, dado à tentativa do Império de manter a arrecadação de impostos, deteriorava-se aos poucos pelos cascos dos animais e rodas de carros de bois. Em algumas regiões a coisa era dramática e quem passava a pé se via com lama até a cintura.

No entanto, o pior pessadelo de quem transitava por aqui era sem dúvida a violência. E essa história era contada pelas tantas cruzes espetadas às suas margens. Os locais preferidos pelos bandidos eram os estreitos, quando o trânsito se apertava, por exemplo, entre rochas, o que punha em vulnerabilidade os transeuntes e tornava sem eficácia qualquer estratégia de defesa. E foi justamente no afunilamento de dois paredões de rocha, há quatro dias de Meia Ponte, que um grupo de assaltantes achou de montar tocaia para esperar a passagem de uma comitiva. Eram quatro homens liderados por Agostinho, todos armados de arcabuzes e dispostos a tudo pelo intento. A eles foi prometido muito ouro e pedras preciosas, desde que saíssem vitoriosos, e para essa gente pobre que quase passa fome, esse era um estímulo considerável.


Nas primeiras horas da aurora, uma madrugada fria de junho, céu estrelado já com manchas de luz solar, ouve-se o primeiro resfolegar de cavalos no corredor rochoso e engatilham-se as armas para a emboscada. Os cascos socam seco as pedras do calçamento, as esporas tilintam, as pessoas conversam palavras ainda inaudíveis. Mas mal passam o dois viajantes e são cercados pelos assaltantes. Não são as pessoas esperadas, apenas caipiras que vão à roça. Liberados, partem em desabalado galope. Agostinho  acalma seus amigos, não tardam os que são esperados ali.

De fato, madrugada ainda e ouvem-se tropeis de cavalos que o eco multiplica. E o grupo que deve ser assaltado aparece e é recebido a chumbo. Só que são muitos, três dezenas de homens, e melhor armados que os atacantes. Revidam violentamente e o único morto é Agostinho porque os demais se vão em correria pelo mato. Faltou plenejamento, estratégia, experiência? Que interessa isso agora se o jovem está ali morto e os que atiraram nem pararam para lhe dar um sepultamento cristão?

Foram embora os assaltante e os que seriam vítimas. Restou um corpo que alguém encontrará mais tarde e jogará numa sepultura com uma cruz na cabeceira. Mais um cruzeiro a emoldurar a Estrada Real.

Adriano Curado

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