A lua de sangue

Não gostei dessa história de lua de sangue. Achei meio tenebroso, meio surreal. Dizem que se há um lobisomem enrustido dentro da gente ele se manifesta na tal lua. Então, para me precaver, fechei a cortina da janela e evitei olhar para fora. 

Pura precaução.

 Seria bem desagradável eu me transformar numa criatura peluda, metade homem metade lobo, e sair por aí saltitante sobre os telhados, com uivos ameaçadores na noite. Mas quando já for dia, eu acordar pelado numa praça qualquer. E depois ainda teria um problema sério que seria correr até em casa, tomar banho, trocar de roupa e ir trabalhar. Tudo isto sem ser preso por ato obsceno.

Realmente, melhor mesmo foi fechar a cortina. Além do mais, com essa crise econômica que nos assola, o dolar lá na vizinhança da lua (ops!), seria mais apropriado que eu desse minha contribuição ao País, em vez de ajudar a ampliar sua crise de identidade. Então, caso fosse necessário eu me transformar em algum ser fantástico, optaria por gente nossa: um saci-pererê ou quem sabe o boitatá. Melhor que importar história lá da mitologia grega.


Fato é que não foi necessário me metamorfosear em nada. Continuei a ser eu mesmo, sem maiores radicalismos. As próximas luas de sangue estão previstas para 2032 e 2033. Tenho portanto bastante tempo até lá para me decidir se enfrento ou não esta dúvida de me arriscar à transmutação de um ente exótico. Até lá, fico com a minha vidinha pacata do interior.

Adriano Curado

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