Os três cavaleiros

Afrânio já sabia que viriam buscá-lo em breve porque não conseguira juntar todo o dinheiro que quitasse o arrendamento da terra com o coronel. Sabia também que não adiantaria justificativas de falta de chuva na roça ou ofensa de cobras e onças no gado. O homem iria querer seu dinheiro e pronto.

Foi por isso que ele levou a esposa e os três filhos para a casa dos sogros. Precisava resguardá-los. Também não quis se despedir nem se lamentar, pois a vida tem dessas coisas e às vezes o destino dá uma guinada que não esperamos. Fato é que, sozinho no rancho, agora poderia esperar a vinda dos mensageiros do mal. Não havia muito que fazer. Fugir? Não valia o esforço porque o coronel tinha índios batedores capazes de farejar seu rastro. Tentar empréstimo com agiotas? Isso também seria inútil porque trocaria seis por meia dúzia. Então o remédio era esperar.

E foi numa manhã fria de junho, entremeio denso nevoeiro na serra, que avistou três cavaleiros que se aproximavam. Estava ele sentado no batente da porta, havia tomado um bom gole de aguardente e um arrepio de terçã lhe percorrera o corpo todo. Os recém-chegados saudaram o que os aguardava com leve levantamento de chapéus e ficaram no aguardo que os convidasse a apear. Mas Afrânio ficou ali inerte, o rosto meio afogueado e os olhos apertados, como se olhasse para o sol. Nisso um dos cavaleiros se adiantou aos demais e disse:

— Viemos a mando do coronel.
— Já os esperava.
— Temos contas a acertar.
— Demoraram a vir.
— Tem aí com o senhor os oitocentos mil-réis combinados?

Essa pergunta pareceu a Afrânio uma provocação porque já havia avisado o coronel que não conseguira levantar o dinheiro. Mas ainda assim, só para cumprir o protocolo, pôs-se de pé e disse corajoso:

— Não tenho.

Os cavaleiros se entreolharam e o mesmo que falara há pouco voltou ao assunto:

— Então o senhor terá que nos acompanhar.
— Levo alguma roupa?
— Não será necessário. Onde está sua família?
— Em casa de parentes.
— Sábia decisão.
— Eles nada têm com meus negócios.
— Sabemos disso. Por tal razão viemos buscar apenas o senhor.

Afrânio tinha um burrinho que deixara de véspera no curral, já prevenido, e não tardou a saltar sobre ele, em pelo mesmo. Agora acompanhava resignado aqueles homens. Por que mandar três? Ele era fraco, nem saberia pegar numa arma, não carecia de tanta gente para conduzi-lo. Pouco mais adiante, no desembocar duma vereda, fizeram alto. Chegou a hora, pensou Afrânio. O cavaleiro que até agora fora o único a falar, se aproximou dele e pediu que apeasse. Apearam todos. Antes de ir, no entanto, o conduzido meteu a mão no bornal que trazia junto ao corpo e tomou outro generoso gole da aguardente.

Os cavaleiros o guiaram até uma vertente próximo à encosta dum morro. Antes de ouvir qualquer palavra, indagou:

— É aqui que vão me matar?

Os homens se entreolharam e um deles, o de sempre, respondeu com um sorriso:

— De forma alguma. O coronel mandou trazê-lo aqui porque quer que o senhor cultive estas terras. Elas são mais férteis que a outra e assim poderá ter bom lucro para quitar o débito ano que vem.

Afrânio cambaleou e se segurou numa rocha. Tentou ainda olhar para as novas terras que lhe eram ofertadas e esboçar um sorriso, mas só conseguiu mesmo foi dizer:

— Achei que já estava condenado à morte e para não sofrer tomei veneno.

Adriano Curado

Conto resumido extraído do livro O tapuia que não falava português.

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