Carta ao vento

Eu fiquei ali a tarde toda à sua espera, na esperança de que aparecesse para confabularmos confidências que são só nossas. Mas você começou a demorar mais que de costume e eu me preocupei mais que de costume. Aqui nesta cabana em tão alta montanha infelizmente não tem sinal de telefone celular e nem nos alcança a internet. Por conta disso não pude saber se você vinha ou não, se algo lhe aconteceu ou se a vida a acometeu de nuances.

Enfim...!

Então o sol começou a ficar sonolento ali para as bandas do poente e eu sei que na escuridão ninguém sobe aqui. A exceção são os anjos, arcanjos e querubins. Mas não é disse que falamos aqui. Agora creio menos nos anjos!

Fato é que, cansado de aguardar e sedento pelo vinho português que o vento destas montanhas resfriou naturalmente, resolvi encher duas taças. Uma é minha e a outra sua. Não importa se está aqui ou não: a taça é sua. Uma rufada de vento mais encorpada fez espalhar flores coloridas pela minúscula varanda e isso me deu a sensação doce de proximidade com o céu. Lá embaixo as sombras começam a cobrir a mata e um silêncio assustador desce sobre nós.


Adormeci aquecido pela lareira que devorou toda a lenha pela madrugada e quando despertei já era dia novamente. Então ouvi um barulho de asas bem próximo e me voltei cuidadoso para averiguar. Era um beija-flor tão minúsculo que conseguia flutuar sobre a taça que reservei cheia para você e provava do líquido que era para você.

Quer saber de uma coisa? Voltei a acreditar em anjos! E esta carta vou enviar pelo vento,  o único mensageiro destas distantes terras.

Adriano Curado

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