A estranha da rua


Aquela moça que mora próximo ao final da nossa rua, ali pertinho da praça florida, é uma pessoa muito estranha e enigmática. Tanto que as mães não gostam que seus filhos brinquem no parquinho da praça, temem que a desconhecida manifeste assim de repente algum instinto assassino. Ela mora por aqui há uns dois anos e até hoje ninguém sabe seu nome ou algo de sua vida. Nunca a vimos sair para trabalhar ou estudar. Salvo o carteiro que uma vez por semana lhe entrega um envelope pardo, não recebe ninguém em casa. Ano passado fizemos uma quadrilha aqui na rua e a convidamos, mas ela recusou.


E o mais interessante é que a danada é bonita demais. Deve andar ali pelo meio da casa dos trinta, se muito, é loira e tem olhos de um azul triste, sem brilho algum. Eu a cumprimento sempre que a vejo raramente em trânsito e ela responde com um esboço de sorriso. Mas parece que sou o único por aqui que faz isso. O restante da rua é implicado com a pobre, que sequer se deixa ver com frequência, quem dirá fazer mal a alguém.



Dona Genoveva, que põe defeito em todo mundo, inclusive em mim, não achou ainda uma pontinha para puxar da vizinha mas tem se esforçado. Outro dia tentou convencer o carteiro a violar uma das correspondências mas não teve sucesso. Também a viram distraída no trabalho de remexer o lixo da investigada, só que isso também não deve ter tido lá algum resultado, ou a rua inteira já saberia.

Escrevo sobre isso porque hoje a encontrei por acaso e a convidei para um jantar aqui em casa. Será algo íntimo, para umas dez pessoas. Quero comemorar um sucesso que tive nos negócios. Convidei a moça para zoar com dona Genoveva, que ouviu o breve diálogo e ficou inquieta para saber o motivo.

Já estão todos aqui em casa. Em volta da mesa as taças repletas de champanhe aguardam o brinde. Mas eis que soa a campainha. Atendo e dou de cara com a estranha vizinha que se apresenta como Laura e me presenteia com algo em um envelope pardo. A tudo isso presencia dona Genoveva. E antes de fechar a porta eu lanço para ela um sorriso enigmático.

Conto resumido extraído do livro O tapuia que não falava português.

Adriano Curado

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